Correr como um cadete

Julian Alaphillipe é um ciclista de encher o olho. Num ciclismo cada vez mais metódico, e que se torna chato, é bom continuarem a existir ciclistas impulsivos, verdadeiros animadores de corridas de ciclismo e que nos fazem regressar a tempos que já não existem.
A maioria dos espectadores ocasionais do ciclismo vêem o Tour, a Volta a Portugal, talvez o Giro e a Vuelta. Uns, quase exclusivamente por gostarem de ver as paisagens e os monumentos, para muitos, a única forma de chegarem a países estrangeiros, ou até, cobrirem o território português. Outros, porque gostam de ver ciclismo, porque gostam do que simboliza o Tour ou a Volta a Portugal. Estão estes cada vez mais habituados ao ciclismo moderno de previsibilidade.
Mas para quem anda pelo ciclismo durante todo o ano, e durante anos, há sempre um pequeno refúgio para essa cada vez maior previsibilidade, sobretudo em grandes provas por etapas. As clássicas aqui estarão sempre um pouco à parte porque são a prova do tudo ou nada num dia.
Ora, como refúgio dessa previsibilidade, teremos sempre as provas dos escalões jovens, onde até os menores impulsos são praticamente incontroláveis pelos treinadores. É certo que existem fortes diferenças de “andamento” entre os vários corredores dos pelotões jovens e, quanto mais jovens, mais diferenças. Mas mesmo entre os que se equiparam, uma prova de Juvenis ou Cadetes será sempre uma corrida dos anos cinquenta. Até um treino é!
Claro que, no meio dos impulsos, os erros tácticos são constantes. Não vem mal ao mundo por isso, aliás, bem pelo contrário. É perfeitamente natural que os maiores erros sucedam nas fases de aprendizagem, no ciclismo, como na vida. A maior diferença estará nos que vão aprendendo mais rápido a eliminar essas falhas, nos que aprendem mais lentamente ou, nalguns, que nunca vão conseguir identificar o que fazem de mal.
Voltando ao início, obviamente não vou ter o descaramento de dizer que Alaphillipe, corre como um Cadete. Mas o que já direi é que nesta última etapa de montanha o francês parecia um Cadete a correr, e daqueles que começaram no ciclismo apenas no segundo ano de Juvenis. Seguir logo Pinot foi impulsivo demais, mas ficar entre Pinot e o grupo de Thomas e Kruijswijk, os principais adversários no momento, a babar-se (literalmente) de esforço, é o exemplo acabado do que nunca se deve fazer. E ser apanhado pelo grupo e continuar a “tirar” na frente?! Thomas, que não gastou um milímetro a mais do que podia, agradeceu.
Se na próxima Volta a Portugal de Cadetes os ciclistas se podem dar ao luxo de cometer todos estes erros e muito mais, no Tour, não há tempo para correr como um Cadete. Isto, sem deixar de considerar que Alaphillipe é de facto um ciclista que nos empolga.
Luís Gonçalves

1 comentário a “Correr como um cadete”

  1. Se calhar se em Portugal os nossos corressem como ele correu anteontem (para não falar nos outros dias) os resultdos das provas são seriam tão previsíveis.

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