Montanhas de vento

O vento pode ser a pior das montanhas para os ciclistas. É comum vermos ciclistas a considerar que é melhor estar calor, apesar do desgaste que o calor também dá, do que vento. O vento é um valente embaraço quando se trata de o enfrentar, mas não é menos indesejado quando surge perigosamente de lado ou incerto, ou, em certos casos, ao contrário do que possa parecer, quando surge de costas para os ciclistas. O vento é, portanto, um todo o terreno de dificuldades.

As agruras do vento ficaram bem à vista para alguns dos favoritos à vitória no Tour, numa etapa onde parecia que nada sucederia. Perderam mais tempo do que certamente perderão em algumas das grandes etapas de montanha do Tour.

Naturalmente que, retirando os que tiveram algum azar (como Landa e a Movistar), teremos que considerar que se se estuda tão bem algumas etapas de montanha, com os dados que estão permanentemente a chegar a estas equipas Worldtour, esta montanha do vento não poderia ser alheia a alguns pretendentes à vitória final. E aqui, quer se goste ou não, sobretudo a Ineos, voltou a não falhar.

Terra ventosa, costuma ser também a zona do Oeste português. Não será por acaso que por lá existem tantos moinhos de vento. Henrique Casimiro, venceu em o GP de Torres Vedras, dando um reforço de moral à sua equipa que se prepara, como todas as outras, para enfrentar o principal desafio da época, a Volta a Portugal.

Se não é de admirar a vitória da Efapel, por sinal uma das equipas mais vitoriosas da época nacional, já foi mais de admirar o colapso pouco normal do W52-FCPorto. Duma situação que à entrada da última etapa parecia quase a ideal, foi estranho ver a fragilidade demonstrada por aquela que tem sido, de facto, a melhor equipa nacional das últimas temporadas. A orfandade repentina da sua referência dos últimos mais de dois anos, parece afectar a estrutura.

Faltam, contudo, ainda mais de duas semanas para o início da Volta, uma prova com mais dias, que se corre de forma diferente, por certo, com outros protagonistas.

Apesar de continuar a ser um bom indicador, a verdade é que o GP de Torres Vedras já foi um barómetro melhor da Volta. Vêem-se algumas equipas e ciclistas motivados, mas as circunstâncias e a pressão de tudo o que rodeia a Volta é bem mais decisiva do que qualquer subida ao Montejunto.

Por ora, para além do nervosismo demasiadamente visível para as suas aspirações que alguns ciclistas nacionais demonstraram, talvez o melhor barómetro do GP Torres Vedras seja ver o que podem fazer algumas equipas estrangeiras na nossa prova rainha. Como equipas, umas boas, outras razoáveis, outras frágeis demais para enfrentar as agruras e os ventos da Volta a Portugal.
Luís Gonçalves