2008, ano de CERA

Eritropoetina de terceira geração terá chegado ao pelotão em 2004. Metodologia de detecção foi desenvolvida este ano e já causou transtorno: Riccò, Piepoli, Schumacher, Kohl e Sella. Volta a Portugal com amostras retrotestadas em busca da EPO milagrosa

Em 2008, o mundo velocipédico passou a acordar com um novo acrónimo no léxico da dopagem, ironicamente de fácil memória ao ouvido: CERA, a designação para Continous Erythropoïetin Receptor Activator, uma espécie de “Super-EPO”, capaz de produzir numa só injecção por mês os mesmos efeitos de produção de glóbulos vermelhos alcançados com a EPO tradicional de administração quase diária. Produzida sob chancela dos Laboratórios da ROCHE, a CERA  é tida como presente no pelotão internacional desde há quatro anos, cumprindo em ciclistas – e eventualmente outros desportistas de fundo – a missão que a sua forma comercial recente (Mircera, 2007) cumpre em doentes anémicos. O “boost” é excelente e, até à última Volta a França, apresentava-se indetectável. Primeiro foi o laboratório de Paris a desenvolver um método de traçar a molécula na urina, depois seguiu-se uma metodologia complementar, testada na Suíça, e capaz de detectar a substância no sangue. O método combinado foi posto em prática e os falsos resultados começaram a tombar.

Piepoli e Riccò, amigos e cúmplices na dopagem
Piepoli e Riccò, amigos e cúmplices na dopagem

O veneno da Cobra
O primeiro foi Riccardo Riccò. A jovem e ambiciosa estrela do pelotão italiano acusou  pela primeira vez a famosa molécula, também consagrada como exemplo da EPO de terceira geração. Riccò acusou CERA numa amostra retirada da quarta etapa do Tour, antes da suas exibições vitoriosas na altas montanhas da prova. No turbilhão, o dia seguinte ao anúncio do positivo de Riccò, permitiu levantar a lebre ao colega de equipa Leonardo Piepoli. O italiano terá confessado o uso da mesma substância, mas desmentiu mais tarde diante do inquérito do Comité Olímpico Italiano. Valeu-lhe pouco a mentira, pois a confirmação chegou a seis de Outubro, com duas amostras positivas por CERA.

Primeiro Schumacher, depois Kohl
Primeiro Schumacher, depois Kohl

O caso Gerolsteiner e Sella
A febre da CERA, que necessita, ao contrário de outras formas de EPO (Aranesp, Dynepo, exemplos da EPO de segunda geração) uma singular tomada para efeitos prolongados, vitimou ainda outras figuras do Tour, com a retrotestagem das amostras recolhidas na prova. Os próximos positivos foram ambos da mesma equipa alemã, Gerolsteiner, curiosamente com desaparição anunciada ainda antes de qualquer caso. O primeiro foi o alemão Stefan Schumacher, vencedor dos dois contra-relógios individuais do Tour. O caso de Schumacher foi revelado pela Agência Francesa de Luta Anti-dopagem (AFLD) e, embora causando surpresa, justificou a surpresa que a hegemonia das suas prestações demonstraram. Por fim, coube ao imberbe austríaco Bernard Kohl, o último grande papel de vilão. Kohl foi a sensação da prova, conquistando a camisola da montanha e o terceiro lugar final: o pódio do Tour, afinal, estava contaminado. Entre os casos de Schumacher e Kohl, a UCI testou, em Agosto, pondo em prática a metodologia de detecção de Lausana e Paris, as amostras congeladas recolhidas de um controlo fora de competição de Emanuelle Sella, vencedor do prémio da montanha e de três etapas da Volta a Itália. A confirmação da presença da mesma molécula, aumentou para para cinco o número de corredores apanhados (para já) com esta substância.

Portugal à espera dos resultados
Na rota da dopagem habitualmente citada pela UCI, Portugal não escapou à febre da CERA. As amostras colhidas da última Volta a Portugal serão testadas em Lausana. A notícia estalou no começo do mês e, para já, toda a prudência é necessária. No total, foram 18 as amostras que seguiram para a Suíça.