A União Soviética em Torres Vedras

Quando a Volta a França, inevitavelmente, domina atenções, também não poderemos ignorar que em Portugal se disputa uma das provas mais importantes do calendário nacional, com presença, também, no calendário internacional.

Numa festa de homenagem a Joaquim Agostinho, O GP de Torres Vedras é a prova que antecede a Volta a Portugal. Já foi mais barómetro da prova maior do ciclismo nacional. Por hoje, tendo em conta a forma de ver o ciclismo na actualidade, acaba por ser um pouco vítima da forma como que alguns ciclistas preparam a sua participação na Volta a Portugal.
Nada que constitua obstáculo à sua importância e história na modalidade. Dessa história, que começou em 1978 com a vitória de Carlos Santos, muitos vencedores, maioritariamente portugueses, mas, no meio de todos, um vencedor interessante.

Em 1986, participou uma selecção que nos tempos que correm teria uma participação impossível. Ora, ainda no período da URSS, que se desmembrou em 1991, veio ao GP de Torres Vedras a selecção da União Soviética. Venceu a edição desse ano de 1986 o soviético (agora letão) Piotr Ugrumov.

Nome esquisito que nos traz poucas lembranças. Contudo o então soviético Piotr Ugrumov, foi segundo no Tour de 1994 (venceu duas etapas) e também segundo no Giro de 1993 (venceu uma etapa), onde também foi quarto em 1996. Foi, ainda, oitavo classificado na Vuelta, o que lhe permitiu terminar todas as grandes voltas nos dez primeiros da geral.

Curiosamente, nos dois segundos lugares que fez nas grandes voltas, Ugrumov foi apenas batido por… Miguel Indurain. Se não fosse o espanhol, talvez nos viesse melhor à memória o nome de Piotr Ugrumov.
Por esse ano de 1986, a União Soviética, teve ainda outro homem no pódio final, Jonas Romanovas, em segundo, e o melhor português, em terceiro lugar, foi Marco Chagas.

Por coincidência, no ano de “viragem” da União Soviética, conforme já referido em 1991, por Torres Vedras foi também um soviético que ganhou. Viktor Klimov, já reconhecido como ucraniano, bateu o português Joaquim Gomes, segundo classificado.

Momentos simbólicos, de grandes equipas e ciclistas da União Soviética que passaram por Portugal, não só em Torres Vedras. Um ciclismo diferente. Se havia algo em que os soviéticos investiam era nos resultados desportivos. Uma forma de demonstração de força, unidade e igualdade, mesmo que todos os parâmetros fossem fictícios. Mas não deixavam de ser boas equipas e bons ciclistas, ao que consta, com condições ainda pouco imagináveis no ciclismo português de então.
Luís Gonçalves