Um trampolim com trinta e cinco anos

Nelson Oliveira, José Gonçalves e Rui Costa, os portugueses presentes este ano na Volta a França, fazem parte de uma história a que se podem somar cerca de quarenta nomes que tiveram início em 1956 com Alves Barbosa.

Uma nação, com visível interesse pela modalidade, mas longe do centro do ciclismo mundial que, numa então distante França, conseguiu sucessos relevantes, com vitórias em etapas, nomeadamente no mítico Alpe D’Huez, pelo inevitável Joaquim Agostinho, pódios, pelo mesmo ciclista e até envergar a tão desejada camisola amarela (que este ano faz cem anos, sendo provavelmente o símbolo mais conhecido do ciclismo) por intermédio do transmontano Acácio da Silva.

As estruturas existentes em Portugal, nomeadamente as estruturas a cargo da Federação, até ao virar do século XXI, eram de facto e em grande medida deficitárias. Estávamos ainda muito longe das grandes nações europeias do ciclismo e começávamos a olhos vistos a ser ultrapassados por zonas emergentes, como a América do Norte ou a Austrália. O contexto, só fazia aumentar os feitos dos ciclistas portugueses além fronteiras.

Os modelos mudaram, as estruturas mudaram, a Federação modernizou-se, as equipas, sobretudo na formação, peça importante da engrenagem, adaptaram-se aos novos tempos e às novas exigências. Não se pode dizer que seja hoje mais fácil para os ciclistas portugueses terem sucesso fora de portas. Mas, definitivamente, que têm a vida mais facilitada. Sem o Velódromo de Sangalhos e toda a estrutura do CAR da Anadia, agora reconhecida pela UCI, seriam impossíveis os sucessos actuais na pista, por exemplo, apesar de levar-mos anos de atraso em relação a uma parte substancial dos competidores. Uma vez mais, aqui, foi decisiva a estrutura, mas não menos decisiva a vontade das equipas em levar os seus ciclistas jovens à pista. É sempre das equipas que se projectam os ciclistas.
E falando de equipas e regressando à Volta a França, nessa história de sucessos portugueses, talvez o mais simbólico de todos, por toda a conjuntura que envolveu, fosse a vitória de Paulo Ferreira, na quinta etapa, em 1984. Uma conjugação rara e única da vitória de um português, em representação de uma equipa portuguesa. Como sabemos, não mais vista.
Já em 1975 o Sporting tinha estado na Volta a França, mas foi em 1984, com a denominação Sporting/Raposeira (penso que tiveram que dizer que a Raposeira era uma marca de chocolates, porque na Volta a França não permitiam publicidade a bebidas alcoólicas), alavancado pela memória do seu maior símbolo, Joaquim Agostinho, falecido precisamente em 1984, que o emblema do Leão teve uma participação notável. O Sporting, tem de facto uma presença a defender na modalidade, porventura, a modalidade que lhe deu a alma.

Na última etapa, em Paris, o então técnico do clube de Alvalade, Emídio Pinto, tendo em conta a vitória na etapa (lembrando que apenas nove, das dezassete equipas presentes alcançaram vitória em etapas) e o número de ciclistas sportinguistas que terminaram a prova dizia que estava ali “um trampolim para o ciclismo português”.

Declaração interessante, com trinta e cinco anos, bastante tempo para, sob vários pontos de vista, nos deixar a pensar sobre o assunto…
Luís Gonçalves