Os sobressaltos da Volta à França

Em 1903, a Volta a França era a maior aventura desportiva realizável. A ideia dos seus criadores era precisamente essa. Organizar um evento que pela sua dimensão impressionasse o público e, por inerência, contribuísse para o aumento da venda de jornais. Foi tudo alcançado e talvez até superado nesse já distante ano de 1903. Foram mais de vinte mil espectadores (pagantes) que assistiram ao final da última etapa em Paris.
Mais de cem anos depois, com um ou outro sobressalto, a Volta a França continua a ser uma aventura desportiva. Não tão dura como há 116 anos, mas ainda a maior. Tem par no Giro, mas o mediatismo francês consome tudo o resto quando toca a vender esta imagem.

Apesar do sucesso evidente, em 116 anos, sobressaltos não faltaram. Guerras mundiais, que tornaram a prova de 1919 e sobretudo a de 1947 nalgumas das mais impressionantes de sempre. As interrupções das grandes guerras foram “alternativas”. Se durante a primeira não existiu nada, durante a segunda, para dar uma imagem de estabilidade, os alemães impuseram algumas provas, que não eram o Tour, nem nada de parecido, mas uma imitação. Há altura, Jacques Goddet, sempre se opôs às pressões dos invasores alemães. Ainda assim existiu o Circuito de França e Grande Prémio da Volta a França. Ou seja, acabou por colaborar, a bem da França, mas negando sempre aos invasores a maior corrida de todas.

Mas quando em 1947 uma França já livre viu o Tour, também viu que a sua fama, carinho popular e importância social e agregadora do território não tinha esmorecido. Numa verdadeira volta por toda a França, Goddet, investiu muito trabalho nessa edição, provavelmente não menos que Jean Robic, ciclista vencedor, ainda hoje um conhecido herói popular francês. Numa corrida de selecções, a Alemanha não foi convidada. Nem nos dez anos seguintes.

A Volta a França, como qualquer grande evento ou personalidade, tem a sua vida envolta em escândalos e incidentes. Em 1904, durante a segunda edição, foi tal a dimensão dos problemas que esteve para ser o segundo e o último Tour! Foram desclassificados vários ciclistas por falhas de percurso, boleias em carros e prejuízos vários causados aos concorrentes directos. Maurice Garin, o primeiro herói do Tour, foi um dos punidos. E não deixou de ser um herói popular.

Tour de France 100: A Photographic History of the Tour de France; TDF100
Foto L’Équipe.


Já de longe, questões políticas, políticos e protestantes de vária espécie, aproveitam-se da dimensão internacional do Tour. Como se sabe, os protestantes, e não é caso único e raro, podem ser os próprios ciclistas. São famosas as imagens da etapa 12, da Volta 1998, num protesto em que os ciclistas aparecem sentados no meio da estrada, encabeçados por Marco Pantani. A questão: controlo anti-doping.

Provavelmente, a incómoda questão mais antiga do ciclismo. Do caso Festina a Lance Armstrong, o Tour tem resistido a tudo. Talvez porque o público, mesmo o menos conhecedor, sabe que o controlo antidoping existe no ciclismo como não existe em nenhuma outra modalidade, há anos.

Depois dos Jogos Olímpicos do México, durante os anos 60 e 70, foi essencialmente só a UCI que se dedicou a essa luta. Não é preciso ir longe. O primeiro evento com controlo em Portugal (em 1968), e durante bastante tempo o único, foi a Volta a Portugal. Em rigor, o ciclismo é uma modalidade de doping, como todas as outras, mas não é a modalidade do doping como a querem “vender”. É, apenas, e sempre foi, a mais controlada. E o maior controlo não tem só a ver com o número de controlos, mas também com o tipo e o tempo há que se fazem controlos.

Alguns sobressaltos. Mas a dimensão popular e social da Volta a França tem ultrapassado tudo. Quando o produto é bom e genuíno não há nada que o trave. A prová-lo estão os cento e dezasseis anos. Os campeonatos do mundo de futebol ainda não chegaram, sequer, aos cem.

Mas, dizia Jean Marie Leblanc, histórico director do Tour, quando passou por Portugal há uns anos (sem ser na Volta a Portugal, como ciclista): “O que pode consumir o Tour é a sua própria grandiosidade”. De facto, o gigante é cada vez maior, alavancado no século XXI pelas transmissões televisivas bem mais acessíveis a um público cada vez maior, mais extenso, mais global e mais abrangente. E há sempre um tecto máximo para tudo. Ainda não sabemos qual será o do Tour.
Luís Gonçalves