“Ter opinião própria, é cada vez mais uma chatice, em especial, no desporto e na política”

Há umas semanas atrás, por altura da apresentação do GP Abimota, a figura de Alves Barbosa foi recordada, num prémio que trará agora, também, o seu nome.

As palavras para definir Alves Barbosa, por mais que fossem, foram sempre poucas. Sentimento unânime de oradores e de uma plateia conhecedora que bem sabe ser difícil falar de alguém que se confunde com o ciclismo nacional. Alves Barbosa só não foi presidente da UVP/FPC, provavelmente porque não quis. De resto, foi ciclista, treinador, técnico nacional, comentador, autor de livros e até actor em prol da modalidade.

Contando com a presença de familiares próximos, ficaram a cargo da esposa curtas palavras, mas substanciais, onde se vincou o conceito de memória. Não há modalidades sem memória. Não há nada sem memória. O que há, às vezes, é pouca memória. Aliás, a memória, por todo o lado, parece andar pelas ruas da amargura.

Por estes dias, tenho ficado com a impressão que o nosso herói nacional é o João Félix, tão jovem quanto o D. Afonso Henriques quando iniciou carreira na simples fundação da nacionalidade, mas bem mais valioso. Naturalmente que desejo toda a sorte do mundo ao João Félix e a todos os outros iguais a ele, mas, no contexto, é deprimente ver como funciona o essencial da comunicação social. Moços de recados, a quem não deixam ter memória, muito menos opinião própria. Também, ter opinião própria, é cada vez mais uma chatice. Nomeadamente no desporto e na política.

Há sempre ressalvas. Não é de agora, nem por trazerem recentemente à baila um consagrado herói nacional (Joaquim Agostinho), mas há muito que vejo o programa Sociedade Civil, conduzido pelo jornalista Luís Castro na RTP2, como, senão o melhor, pelo menos um dos melhores da televisão portuguesa.

As áreas têm sido variadas e esclarecedoras, para quem quiser ficar esclarecido. Não passa durante horário “nobre”, não tem o espalhafato pouco esclarecedor do Prós e Contras, nem é isso que se pretende e, provavelmente, os níveis de audiência não serão os melhores da estação. De determinado ponto de vista, nada disso interessa. É um modelo que recorrentemente traz úteis memórias populares, boas e más, com uma abrangência de temas notável, sem discriminações e tentando ir buscar quem de facto domina os assuntos e pode acrescentar algo de útil à sociedade civil, apenas por isso.

Quanto ao Joaquim Agostinho, para além dos notáveis resultados desportivos, lá foi bem relembrada a sua importância social, num momento de forte emigração nacional, sobretudo para França, onde os portugueses de então seriam duramente considerados cidadãos de terceiro mundo. E sobretudo nessa França, foi Joaquim Agostinho pelos sucessos que impôs a belgas, espanhóis, italianos e aos franceses, o aconchego moral de muitos desses cidadãos. Assim se fazem os heróis nacionais. De feitos verdadeiros. E ainda bem que vai restando alguma memória, gente capaz e, no contexto actual, audaz (às tantas é mais fácil ser repórter de guerra!), para trazer essas memórias.
Luís Gonçalves

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