Dar a Volta a Itália e passar por Portugal

E finito il Giro. Carapaz deu a Movistar uma vitória desejada. Não seria um dos principais favoritos, mas, quem faz quarto na edição anterior deveria estar debaixo de olho de todos quantos quisessem vencer a edição 2019. Talvez se tenham distraído em demasia com Carapaz e ele foi capaz de aproveitar bem isso.

Secundado por uma equipa que deu verdadeiras mostras de ser a melhor deste Giro, com um Landa, muito forte nesta ultima semana, o equatoriano inscreveu definitivamente o seu nome na história da modalidade. História onde já estava Nibali que, apesar de não ganhar, não sai com o ego beliscado desta participação no Giro. Foi sempre o principal adversário de todos, em todos os diferentes momentos da prova. A Roglic, faltou muita coisa. Até forças, nesta dura semana final.

Foi mais um grande Giro. Como sempre. Doumolin fez falta até ao fim, mas os ciclistas presentes deram-nos uma prova versátil, talvez ensombrada por algumas decisãos discutíveis do colégio de comissários.

Os apenas dez segundos de penalização a Roglic, pelo empurrão, sem esforço crítico do esloveno, numa altura crítica para o esloveno, valeram o pódio. A penalização superficial, e que abre precedentes graves para o futuro, a Miguel Angel López, valeram a vitória na classificação da juventude. Não se pode criticar em demasia o colombiano, e até certo ponto se percebe o que fez, mas, nunca o deveria ter feito. Fosse outro ciclista, e de outra equipa e, se calhar, tinha sido expulso da prova. À vista do que têm decidido vários colégios de comissários, ao longo do tempo, seria o mais normal, ou, pelo menos, uma sanção mais pesada. Independentemente de tudo, não se pode equiparar alguém que pontapeia um espectador a, quase, alguém que apanha um impulso com um bidon. Apenas isto (e muitas outras decisões) que não consigo compreender entre os comissários.

Quanto a nós, por cá, preparamos duas provas tradicionais do calendário português. Em paralelo com a Itália, em 1997, Evgueni Berzin, vencedor do Giro 1994, acumulava sucesso no GP JN. A edição 2019 desta competição, apresenta-se com vários dias, o que se saúda, e com três CR. Se há uns anos era uma especialidade quase esquecida nas corridas portuguesas, agora, só numa temos três etapas dedicadas à especialidade. Não há fome que não dê em fartura, desde que a fartura não seja em demasia. Talvez seja.

Um pouco mais tarde a quadragésima edição do GP Abimota. Duas provas apetecíveis e históricas no calendário nacional. Esperemos que com o brilho e a paz que o ciclismo merece. Equipas e sobretudo organizações, compostas de pessoas decanamente honestas, fazem um esforço notável por manter vivas estas provas, bastiões do desporto nacional e da cultura desportiva do país. No contexto, talvez alguns devessem ter grandes lições de história sobre o que é o desporto, quais são os desportos (convém conhecê-los todos!), ser desportista, verdadeiramente equitativo e transparente.

Há os desportistas e os déspotistas. E, a opacidez, vem muitas vezes de onde mais se apregoa a transparência. Com relativa frequência até é causa efeito. Veja-se, biblícamente, os Fariseus.
Luís Gonçalves