Será que a televisão torna as etapas aborrecidas ?

Muito se tem falado sobre estas primeiras etapas do Giro. Etapas extensas, tendencialmente planas e percorridas em pedalada monótona. Não é, de todo, o Giro a que estamos habituados. Sobretudo nos últimos anos não é esta a imagem que nos tem sido vendida.

Mas será que este Giro, ou o ciclismo em geral, estarão assim tão arredados da realidade da modalidade, ou por outra, do que sempre foi normal?
Recuando aos primórdios das grandes voltas, obviamente, vamos encontrar exageros. A primeira etapa de sempre do Giro, em 1909, teve uns módicos 397 Km. Nesse ano, a mais curta etapa de todas, a oitava e última, teve 206 Km. Impensável nos padrões actuais, pelas mais variadas razões, mas a marca da extensão das etapas não deixa de estar na génese e espírito do que é o ciclismo e do heroísmo dos ciclistas.

Com o passar do tempo a modalidade foi-se adaptando (mau seria o contrário!) mas essa marca nunca desapareceu por completo. Sem recuar tanto no tempo, e até usando um exemplo nosso, na Volta a Portugal de 1991, foram sete as etapas com mais de 200 Km. Hoje em dia seria a Volta quase completa. Neste ano de 1991, para quem quiser, será interessante ver o mapa dos 244,6 Km que ligaram o Fundão a Oliveira do Hospital.

Sempre foram comuns as grandes distâncias percorridas no Alentejo e, nos últimos anos, Castelo Branco aparece-nos com frequência como a localidade recordista das longas etapas, normalmente, mais de 200 km.

No plano superior, o das grandes voltas, as grandes quilometragens também nunca foram esquecidas. O público, na estrada, acha normal, porque vêem os ciclistas durante pouco tempo. É uma hipótese para cobrir mais rapidamente uma parte do território, às vezes, as organizações não têm outra forma de cobrir esse território, sem desagradar aos autarcas interessados em acolher as partidas e chegadas. É, um pouco, o mesmo problema dos locais de chegada que, por vezes, são pouco recomendáveis, mas existem uma série de interesse reunidos para que sucedam naquele local.

No fundo, o ciclismo sempre teve este tipo de etapas e, desde que não haja exageros, não pode passar sem elas. Pode-se dizer que é até uma exigência cultural das grandes massas populares, por ser essa a imagem que têm do ciclismo. Para a maioria da população, os ciclistas fazem sempre muitos quilómetros. Se fizerem 90 km, nem sequer dá para aquecer. Bem se enganam!

Mas, se as grandes massas não se queixam, quem se queixa?

Essencialmente, quem vê as etapas na televisão. Essencialmente, quem vê a etapa completa. Essencialmente, quem acompanha o ciclismo em permanência. Aqui sim, temos que considerar que são más para o negócio, etapas tão extensas, planas e monótonas. E se há uns poucos anos tinha-mos acesso, apenas, aos últimos quilómetros de cada etapa, nos tempos que correm até a partida simbólica é acompanhada em directo.

Para além disso, hoje em dia, os ciclistas já não atacam “à maluca”, tanto fazendo as etapas serem planas e com muitos quilómetros, ou a subir. E se o ciclismo está cada vez mais refém das transmissões televisivas, sem interferir muito no que também é a essência da modalidade, talvez seja útil encontrar aqui uma simbiose entre os quilómetros e a transmissão televisiva, ou o tempo de transmissão televisiva.

Sem ser preciso exagerar, como se calhar o Giro fez este ano (embora no Tour, consideremos normal…), as etapas longas e planas fazem parte do que é o ciclismo. Provavelmente, se ao invés destas etapas do Giro serem longas, fossem de 100 km, estaríamos também a criticar porque seriam, todos os dias curtas de mais.

Por outro ponto de vista, também é preciso existirem etapas planas, ou então fazíamos o Giro, só nos Alpes e nos Dolomitas e não aparecia lá nenhum sprinter. Se calhar, nem metade do pelotão, e seria tão chato como algumas chegadas da Vuelta em que também aparecem todos os dias os mesmos, a correr da mesma forma, apesar de terminarem em subidas (curtas e duras).

Sempre se dirá que o que tornou estas tradicionais etapas, em algo aborrecido de acompanhar, foi a televisão. Mas também é verdade que o ciclismo, que já não vive sem a televisão, tem que ponderar bem o assunto. Não podendo fugir a algumas etapas longas, talvez no tempo e momentos de transmissão.
Luís Gonçalves