A INEOS E O GREENWASHING

O Tour de Yorkshire é uma das mais jovens provas do mundo. Não deixa contudo de ser uma competição empolgante, abraçada por um país até há bem pouco tempo bastante arredado das lides velocipédicas.

A competição é interessante, o cunho da ASO é importante, a prova subiu rapidamente escalões, tendo acesso às melhores equipas e ciclistas, mas talvez o que tenha espantado mais os países mais tradicionais no ciclismo sejam as grandes massas populares que vêem a prova na estrada. Afinal os britânicos gostam de ciclismo, e fazem questão de o demonstrar e abanar bem a sua bandeira.

Repare-se também, que esse sentimento britânico, independentemente do que rodeia a prova e a dimensão das equipas presentes, permite uma participação efectiva de equipas do país, nomeadamente, as selecções mais jovens.

Mas, à boa maneira britânica, a prova deste ano parece vir a ter um picante adicional.

A primeira participação da Ineos (ex-Sky) lança discussões adicionais. Pelos amantes da modalidade uma certa curiosidade para ver de facto se a estrutura será exactamente igual. Tudo leva a crer que sim, mudando apenas o equipamento e o patrocinador principal.

É precisamente em relação a este patrocinador que surge mais um dado. A prova é mediática, o patrocinador é mediático e a equipa é mediática. Características aproveitadas, por vários grupos, para lançar um protesto contra a actividade comercial da Ineos, ligada a produtos químicos.
Tudo indica estarem feitas mais de 15.000 máscaras de Jim Ratcliffe, proprietário da Ineos, com uns pequenos cornos do diabo na ponta da cabeça!

Aliás, a discussão chegou ao nível político, muito fundamentada, ou instigada, por opiniões ambientalistas. Há muita gente a ver com maus olhos a participação de uma empresa deste género no ciclismo, modalidade por tendência amiga do ambiente. É usada a expressão “greenwashing”, para caracterizar o investimento. No fundo uma lavagem, a verde, dos pecados poluentes que a empresa terá, com um certo teor de cinismo.
Os ciclistas e demais profissionais da estrutura não devem estar muito preocupados porque essencialmente pretendem ver a sua vida profissional garantida.

O ciclismo tem de facto visibilidade, é uma modalidade aberta, popular, com público que normalmente respeita o desportista. Também será bom que quem quer protestar o faça contando com isso. Isto porque, vezes a mais, se envereda pelo radicalismo, quando falamos de ambiente.
Luís Gonçalves