Só o ciclismo

O ciclismo é cada vez mais um desporto com forte impacto político e social. Talvez não por Portugal, onde o desporto é demasiadamente monocórdico, porque o futebol funciona um pouco como um eucalipto nas florestas nacionais .

Por Portugal, os políticos (com algum rigor, teremos que excluir aqui os autarcas e apontar baterias aos tecnocratas de Lisboa, ou, que estão em Lisboa) lembram-se dos desportistas quando exigem medalhas olímpicas, ou fazem a festa com as medalhas olímpicas. Como sabemos, nenhuma no futebol.

Mas no panorama internacional o ciclismo é mesmo um fenómeno social, com importância política. Em boa verdade essa funcionalidade não é de agora. Desde o século XIX, como em tudo, variando o grau de impacto por época, que o ciclismo é um desporto com forte impacto na população.

Mas curioso será reparar que esse impacto se moderniza e adapta-se a cada necessidade. Repare-se que pela Europa, berço do ciclismo, o impacto é de apelo ao tradicionalismo, sobretudo com a cultura das clássicas numa tentativa de regresso ao passado heróico da modalidade e dos europeus, características que se vêem também na Volta ao País Basco, por exemplo, ou na tentativa de união europeia que nos tem trazido o Giro, ou com as “invenções” recentes da utilização do sterrato, bom piso que faria rir os ciclistas do princípio do século XX, mas que nos dias que correm nos transportam pelo tradicionalismo e raízes europeias, apelando a um sentimento comum que parece estar a cair em desuso.

Mas se pela Europa, se pretende mostrar que somos o “velho continente” que se pode dar ao luxo de tentar mostrar e regressar ao passado, por outros lados o ciclismo é usado para mostrar a modernidade de países que nós, os europeus, achávamos ainda na Idade Média. Critérios bem patentes, pelo Azerbeijão, por terras dos Emiratos e pela actual Volta à Turquia.

Filmam-se prédios modernos, universidades novas, avenidas com palmeiras e, ao invés do sterrato ou paralelos europeus, utiliza-se, na maior parte dos casos, o mais interessante alcatrão, em estradas largas, denunciadoras não do passado, mas do futuro e da modernidade que estes países pretendem mostrar ao mundo.

A expressão terá que ser mesmo esta. Aqui o impacto político e social é demonstrar ao mundo que são países modernos e de futuro apelativo.
Duas visões, duas formas de impacto político e social, diferentes, mas que se complementam, e pelo que percorre os países em directo e ao vivo ao longo de dúzias de quilómetros a que só o ciclismo permite . É verdadeiramente uma modalidade global (daqui a uns tempos somos transportados para a grandiosidade californiana) e com uma versatilidade invejável.
Luís Gonçalves