Treinador de ciclismo ou Presidente da República

As normas para a formação de treinadores desportivos são impostas pelo Estado, o mesmo Estado, pela mão do IPDJ, que parece querer formar treinadores mais capazes, mais letrados. Uma ideia que funciona bem no plano teórico.

Pelo ciclismo, sempre podemos dizer que estamos numa modalidade com padrões diferentes do habitual. Começamos logo por, invariavelmente, tentar explicar a quem não acompanha estas andanças porque é que temos um campeonato nacional que se disputa numa só prova e uma Taça de Portugal que é composta pela soma de várias provas.

Quanto aos treinadores, o mais próximo que se arranjou, com presença constante nas corridas, foi a figura do diretor desportivo. Figura pouco interessante na maioria das outras modalidades, mas de suma importância, desde sempre, no ciclismo. O certo é que, nos ideais do ciclismo e nos regulamentos da modalidade, treinador e director desportivo são gente com funções diferentes e cada uma bem vincada.

Naturalmente que muitas vezes já se confundiam. Informalmente, no ciclismo, o diretor desportivo sempre equivaleu ao treinador, nomeadamente, no “nosso” ciclismo.

Por isso, o mais fácil para a adaptação às normas foi equivaler ambas as funções e não deixar uma funcionar sem a outra. Bem, à luz dos regulamentos do ciclismo (abundantes…), em competição, a questão não é assim tão linear. Nos profissionais sim, mas nos outros escalões não.

A ideia que passa é a de que o Estado, quando pensa nestes normativos, ignora algumas modalidades. Às vezes, a outro nível, até os apoios das autarquias às equipas vêem a questão de uma só maneira. Ou seja: apoio para a época 2019/20, atribuído em Junho, que dá para preparar a época de futebol, ou andebol, mas esquece que as épocas no ciclismo são de um ano civil e que é preciso dinheiro é em Novembro, o mais tardar!

Mas voltando aos treinadores, as normas acessíveis no IPDJ, são cada vez mais rigorosas. À margem de outros países, pelo menos tão civilizados como nós, a escolaridade mínima obrigatória dá uma facada brutal nas aspirações de muitos. Não que isso seja um pormenor de pouca importância, mas provavelmente em alguns contextos seja demasiadamente redutor, sobre aquilo que deve ser um bom treinador de uma modalidade.

Imagine-se o exemplo. Um cidadão, com pouco mais de quarenta anos, que passou mais de trinta no ciclismo, em hipótese, mais de vinte como profissional, com resultados de mérito. Este cidadão não tem, por pouco, o nível de escolaridade exigido para um determinado grau de treinador. Não pode ser treinador na modalidade onde passou toda a sua vida e onde certamente tem experiência, conhecimentos e respeito acima da média. Não pode ser treinador, mas pode ser autarca, pode ser deputado da nação (para votar leis!) e até pode ser Presidente da República. É a lógica do sistema. Parece aquela que diz que um jovem de dezasseis anos pode casar (mediante algumas obrigações), pode tirar carta (limitadamente, também), tem responsabilidade penal, mas não pode beber uma mini em público.

Não sei se a situação se mantém, mas aqui há uns tempos também ouvi dizer que o Manuel José, um Senador do futebol português, como não revalidou o curso, não pode ser treinador. O Manuel José…

No fundo o que parece é que para o futuro o IPDJ quer, em vez de treinadores, mestres em educação física e doutores em psicologia, pedagogia, didáctica e afins. Se percebem ou não a modalidade, se vivem a modalidade, isso é irrelevante.

Algumas modalidades, nomeadamente o ciclismo, passarão tempos conturbados. A vida de ciclista é difícil, mas a de director desportivo também não é fácil. Se quem está na modalidade já o sabe, quem vem de fora, iludido pelo curso de treinador, ainda ignora esse facto. E desiste com facilidade, quando confrontado com as agruras do caminho. A Federação deve estar atenta a isso.

Mas também fica o aviso à navegação. Jovens do pelotão, por mais sucesso desportivo que tenham, não se esqueçam da escola. Porque mais tarde, aparece um diplomado do IPDJ (ou o que se chamar na altura), a dizer que vocês não têm capacidade para ser directores desportivos, confundidos com os treinadores. Resta-vos, apenas, ser Presidente da República. Mas só quando fizerem 35 anos. Ou isso, ou enquanto esperam pela presidência da República, arranjar equivalências para ser Ministro, ou Primeiro-Ministro! Treinador de ciclismo é que não.
Luís Gonçalves