O mundo dos belgas

A época das grandes clássicas já começou. O Milão-São Remo foi o primeiro dos cinco monumentos do ciclismo. Mas, em boa verdade, consideramos todos quase involuntariamente que a época das grandes clássicas se inicia com o Tour de Flandres. Obviamente ninguém passa ao lado do Milão-São Remo. Seria um acto de pura estupidez. No entanto, quando nos lembramos das clássicas, vem-nos à cabeça caminhos estreitos, pó, ou lama, subidas duras e muitos paralelos. Concentração essencial na Flandres e nas Ardenas. O Milão-São Remo fica um pouco como o Giro daLombardia. Afastados desta imagem, na Itália.

Mas mais do que ficarem na Itália, deixam de ser o mundo dos belgas. Das grandes concentrações populares, do verdadeiro interesse na modalidade e dos ciclistas belgas.

É certo que o Paris-Roubaix não é na Bélgica, mas, até pela proximidade geográfica, parece. Por mais que isso custe aos franceses.

São todos belgas os únicos três vencedores de todos os cinco monumentos: Rik Van Looy, Roger de Vlaeminck e o inevitável Eddy Merckx. No Tour de Flandres, por exemplo, em 102 edições só por cinco vezes não esteve pelo menos um belga no pódio. Neste contexto, provavelmente, o orgulho belga bem se deve ter sentido ferido em 1981 com um pódio inteiramente holandês.

Os monumentos italianos têm domínio italiano, mas nas clássicas do Norte da Europa são os belgas que mandam. Não invalida isto que o único ciclista a conquistar o Tour de Flandres por três vezes consecutivas tenha sido italiano. Fiorenzo Magni, nos anos 50, um homem de clássicas, que também ganhou o Giro. Outros tempos, porque a partir de meados de 90 já não é muito normal ver um claro voltista a conquistar clássicas, sobretudo, estas, do paralelo. É o nível de especialização aumentar.

Os monumentos do ciclismo são de facto cinco. Mas a envolvência belga, o genuíno entusiasmo belga pelas clássicas, e talvez a altura do ano, fazem com que este mundo belga nos faça entrar no verdadeiro espírito das origens do ciclismo, do público entusiasta, do espírito de sacrifício, da corrida aberta, do vencedor inesperado que só estas provas nos trazem.
Luís Gonçalves