Ser jovem no ciclismo

João Rodrigues parece ser o mais recente símbolo, de juventude, no ciclismo português. Uma prestação de assinalar na Volta ao Algarve, com um lugar entre os dez primeiros, ao lado dos melhores do mundo e os mais recentes sucessos por terras alentejanas, com uma vitória de etapa e o primeiro lugar da geral, assumindo-se cada vez mais como um ciclista a ter em conta.

A evolução dos ciclistas, dos desportistas em geral, tem várias etapas. João Rodrigues, enquanto jovem Cadete ou Junior, nunca sobressaiu muito. Se considerarmos as principais competições, passando os olhos pelas classificações, não era de facto um daqueles que estivesse sempre nos primeiros lugares. Mas já era regular. E teve capacidade de sacrifício suficiente para chegar ao profissionalismo. Mas, note-se bem, também é preciso que deixem que os jovens evoluam, considerando que muitas vezes é preciso deixá-los acumular algum tempo de atraso nas corridas, como acontecia, por vezes, ao João Rodrigues. Definitivamente que aprendeu muito com isso e de outra forma não teria o espírito que tem hoje.

Outro jovem, por outras paragens, disputou o sprint na etapa de ontem da Volta à Catalunha, taco a taco, com um dos nomes já confirmados do pelotão internacional. Phil Bahaus não ganhou, porque já o fez noutros dias, mas estava lá. O mesmo jovem que ganhou duas etapas na Volta a Portugal de 2014. Não terminou essa Volta, mas vi-o na Sertã, na zona de meta, a distribuir água aos colegas de equipa que terminavam o CRI. De duas etapas, a ter uma t-shirt “foleira” e dar água com uma mochila à costas. Pedagógico. Guardo a fotografia que tirei com ele nesse dia e mostro-a de vez em quando a algumas estrelas do pelotão jovem nacional.

Com a Gent Welvegen convém relembrar outro jovem. Mario Cipollinni venceu a competição em 1992 e triplicou triunfo (também ganhou em 1993) em 2002, passados dez anos da primeira vitória, já com 35 anos. Apesar de tudo o que se dizia do italiano, a sua carreira foi longa e frutuosa. Como Valverde, manteve-se jovem durante muito tempo. Manter a juventude dá trabalho e exige muitos sacrifícios. Nada é dado de mão beijada e é bom que se apercebam disso bem cedo. Ser ciclista não é só ganhar corridas e fazer pódios. É muito mais do que isso. Muito mais, mesmo.
Luís Gonçalves