Chuva no Alentejo

Chove pouco no Alentejo. Sobretudo no interior Sul. Por esta altura, num ano em que tem chovido ainda menos, já muita gente se queixa e antevê falta de água num futuro bem próximo, ou então pedem um mês de Abril que de facto faça jus à alcunha “em Abril, águas mil”.
Mas por estes dias tem chovido de outra forma no Alentejo. Mais evidente será a chuva que cai na celebração dos pódios da Volta ao Alentejo. O espumante da vitória faz, momentaneamente e como é anunciado, chover em algumas localidades alentejanas.

Mas, mais importante do que isso, o que se nota é que a Volta ao Alentejo é uma chuvada bem fresca por todo o Alentejo.
À partida de Montemor, numa mesa de café, três cidadãos “seniores”, olhavam para um jornal desportivo diário, discutiam as etapas, os ciclistas e as probabilidades de vitória do, claro, Sporting/Tavira. Lá por fora, várias crianças em idade escolar, e em horário escolar, aproximavam-se dos ciclistas, da estrutura, das motas, dos autocarros, fazendo expressar de forma ordeira as suas preferências clubísticas.

Durante a partida simbólica, o comentário interessante de alguns locais: “este ano ainda não tinha visto tanta gente junta”.
Numa etapa que percorreu a maior fonte de água do Alentejo, o Alqueva, em Moura, a mesma agitação muito pouco usual na pacatez alentejana.

Saiem as crianças à rua, demonstrando os seus dotes de cantoria em grupos organizados e orientados por professores, preparam-se os hoteis, os restaurantes, o turismo rural, os cafés, os autarcas vêem apanhar sol, os chefes de divisão do município também, professores, com uma escola próxima, que fazem uma visita à zona de meta, enfim, muita gente que se abeira da chegada, ou os funcionáros do Crédito Agrícola com direito a varanda Vip!

Curiosamente, à chegada dos autocarros, umas horas antes dos ciclistas, pelas ruas estreitas de Moura, como de qualquer localidade alentejana desta dimensão, tiveram que se cruzar os veículos do Porto e do Sporting, sem acompanhamento policial, como parece ser necessário no futebol. Um acontecimento que levou a uma espécie de hora de ponta em Moura, com intermináveis filas de cinco ou seis carros e as inevitáveis buzinadelas, enquanto o nosso amigo Benjamim Carvalho tentava orientar a manobra do autocarro do W52/FCPorto.

Na meta, na zona reservada, as escolas de hotelaria e turismo aproveitam para ensinar os alunos em circunstâncias reais. São mostradas habilidades culinárias e de serviço, mas acima de tudo os melhores e mais tradicionais produtos de cada localidade e do Alentejo em geral.

É assim em qualquer sítio da Volta ao Alentejo. Uma envolvência de toda a comunidade, uma engrenagem que faz movimentar o Alentejo. Uma caravana que faz movimentar as economias locais, uma caravana que anima e puxa por quem vezes a mais é esquecido politicamente. Uma caravana que os alentejanos gostam de ter à sua porta porque lhes proporciona dias diferentes ou não se ouviria “se não fosse isto não se passava aqui nada”. E com isto não se quer dizer que no Alentejo se viva mal. Bem pelo contrário. Apenas que os fenómenos de ajuntamento popular não abundam, sobretudo com tanta gente de fora.

Não é a chuva mais importante que os alentejanos querem, mas a Volta ao Alentejo, ano após ano, não deixa de ser uma verdadeira chuva de frescura económica e social no Alentejo.
Luís Gonçalves