Vencer no Alentejo

Depois do inicio da época para os Juniores, com a vitória de João Silva em Fafe, aproximando-se a primeira prova da época para os Cadetes em Cantanhede, sem nos esquecer-mos que para o pelotão profissional faltam duas Clássicas, a da Primavera e a da Arrábida, certo é que, a nível interno, já muitos têm os olhos apontados para a Volta ao Alentejo.

Um formato idêntico ao de anos anteriores, com seis etapas divididas por cinco dias, numa cobertura variada pelo território alentejano, com a tradicional e conhecida planície, mas também com a menos conhecida vista de mar, agora já mais famosa, porque o turismo se tem desenvolvido, e pelas serras alentejanas que, no nosso panorama geográfico, marcam já altitudes consideráveis.

As serras, não têm subidas imponentes, mas definitivamente que muito duras. Por tendência, curtas mas inclinadas, como nos comprova o Cabeço do Mouro, ou a subida da Penha no dia do CRI.

As planícies, são marcadas por uma ondulação algo irritante, sobretudo para quem segue numa fuga, com frequência um vento incómodo, e cortadas por localidades quase todas com ruas estreitas e incertas, muitas vezes em paralelo. São também em inúmeras ocasiões as características das zonas de chegada, em tantas situações coincidentes com pequenas subidas, onde a colocação é essencial.

Pelas características, sobretudo nos últimos anos, com frequência são ciclistas possantes que vencem no Alentejo, capazes de rolar, capazes de enfrentar estas curtas subidas, capazes de voar em cima do paralelo, invariavelmente com uma boa capacidade de colocação nas chegadas e com habilidades de sprint.

Dependendo dos anos e essencialmente do formato do CRI, quando existe, são também normalmente bons contra-relogistas. A lista de vencedores assim nos diz incluindo alguns dos melhores especialistas nacionais e, como sabemos, internacionais, onde nunca nos poderá faltar o nome de Miguel Indurain, mas também de Melcior Mauri.

Depois dos vencedores das edições iniciais, quase Voltas a Portugal, a esmagadora maioria nomes icónicos do ciclismo português como Paulo Ferreira, Marco Chagas, Joaquim Gomes, Jorge Silva ou Fernando Carvalho e depois de grandes nomes internacionais marcarem a Alentejana, nomeadamente na década de 90, nos últimos anos todo o formato da prova tem-nos permitido conhecer outro tipo de vencedor. Jasper Stuyven, Carlos Barbero, Enric Mas.

Jovens ainda relativamente desconhecidos quando por cá aparecem e que acabam por se impor mais tarde. Tem sido essa uma das virtudes recentes da Volta ao Alentejo e que não podemos desprezar.

Em 2018, Luís Mendonça, interrompeu um domínio estrangeiro de onze anos, que nos tinha que fazer recuar a Sérgio Ribeiro, vencedor em 2006. Dois vencedores que acabam por ter características ciclistícas semelhantes, em edições com perfis algo diferentes.
Quem olha para as etapas da Volta ao Alentejo, qualquer que ela seja, é capaz de tentar identificar vencedores. Na esmagadora maioria dos anos será a mais pura imprudência. Na estrada, ano após ano, o que a corrida nos tem demonstrado é que é a mais aleatória que se faz em Portugal. Se de outra forma fosse teria mais vencedores repetidos, e tem apenas um (Carlos Barbero, cuja segunda vitória foi já na Movistar!).

Os factores que levam a tal até podem ter indo variando ao longo da história da prova. As etapas escolhidas, a altura do ano, a classificação UCI da prova, o interesse de algumas equipas e ciclistas na competição, mas o certo é que em qualquer circunstância a marca distintiva do Alentejo tem sido alguma imprecisão no vencedor final.

O perfil do vencedor vai sendo traçado, mas daí até à vitória vão muitas pedaladas e circunstâncias que a geografia alentejana parece ocultar.
Luís Gonçalves