Ventos de mudança no Algarve

Foi ventosa a Volta ao Algarve. Ora nas serras algarvias, mais frio, ora nas zonas marítimas, mais ameno, o vento, sempre que não está a favor, esse inimigo dos ciclistas, foi presença constante.

Já se sabe que o vento, o fenómeno meteorológico, é um ponto que marca a vida do ciclismo e dos ciclistas, mas não é esse vento que nos traz aqui. Mais do que esse vento, esta Volta ao Algarve trouxe-nos outros ventos. Ventos de mudança.

A prova moderniza-se e adapta-se às circunstâncias modernas do ciclismo. Eventos extra competição, acções de sensibilização e uma envolvência para além do ciclismo simplesmente corrido.

O público continua em bom número, sobretudo, como é natural, ao fim-de-semana. Também o público se moderniza. Há a festa do costume, sobretudo no Malhão, com alguns devaneios próprios dos portugueses, mas é uma massa popular cada vez mais cumpridora e ciente de que ver o espetáculo não é o mesmo que querer interferir no espectáculo. Também já não é apenas o público que acampa, leva a auto caravana, ou a Ford Transit/Toyota Hiace (auto caravanas dos pobres…), o grelhador e os garrafões. Muita gente de bicicleta, mesmo na Fóia, onde o tempo não ajudava, certamente, alguns, já em “estágio” para o Granfondo. “Estágios” que incluem a subida da Fóia e, como deve ser porque um Granfondo é diversão, um bom e bem regado almoço em Monchique, e um jantar ainda melhor, noutro lado qualquer.

Verdadeiras excursões do Norte e muitos estrangeiros, alguns claramente ligados a ciclistas, outros, puros amantes da modalidade, e outros, nomeadamente ingleses, curiosos por ver a estrutura da Sky. Um ou outro ainda tentou ver o Froome!

Um sucesso televisivo, que não esteve isento de defeitos, mas facilmente esquecidos. Uma prova decidida até ao último metro. Vontade política, sobretudo dos autarcas, os mais próximos e por certeza dos mais importantes apoiantes da modalidade. As equipas portuguesas bateram-se como puderam, contra estruturas inimagináveis na nossa realidade, para a esmagadora maioria das nossas equipas.

Mas mais do que tudo isto, porventura os maiores ventos de mudança se vejam na lista dos primeiros classificados na geral, ou até mais para o fim, onde apareceram muitos jovens portugueses a terminarem a prova, uma prova difícil, sobretudo para quem ainda no ano passado era Junior. Sérios apontamentos para o futuro. Talvez, um ou outro, esteja implicado em sucessos futuros em grandes voltas. Está aqui, quanto a mim, o maior sinal de ventos de mudança e, tendo em conta a concorrência, foi no Algarve que eles foram mais fortes. Para quem gosta verdadeiramente de ciclismo, não pode deixar de considerar isso um motivo de orgulho. Não esteve a estrela Evenepoel, mas quem sabe se não estiveram outros bem melhores. Guardem a lista de participantes para recordar daqui a uns anos.
Luís Gonçalves