Há Volta no Algarve

Quando D. Afonso III conquistou definitivamente o Algarve, estava longe, muito longe, de imaginar que essa seria daí a cerca de oitocentos anos uma zona de atracção turística mundial. Em rigor, bem longe estaria também de imaginar o que seria o turismo.

Se o Algarve é um pólo atractivo no Verão, nomeadamente para os veraneantes portugueses, no Inverno, um Inverno agradável, é o ciclismo que provoca a maior romaria, que dá a conhecer ao mundo todo o Algarve, porque o Algarve é bem mais do que só praia e mar.
Pelotão de luxo, que foi ganhando essa forma no final dos anos 90, tendo o seu mais forte impulso na presença de Lance Armstrong em 2004, ano em que venceu o seu “amigo” e então companheiro de equipa Floyd Landis.

Uma história feita de muitas Voltas, que fazem parte do ciclismo português, e que traduzem bem a ligação umbilical do povo algarvio com o ciclismo. Tanto quanto me lembro, nenhum algarvio venceu a “sua” competição, mas definitivamente que animaram a competição e contribuíram para o seu enorme sucesso.

O ovarense Belmiro Silva, com as vitórias de 1977, 1981 e 1984 é ainda o recordista de sucessos na Volta ao Algarve, sendo o homem que venceu a Volta a Portugal em 1978. Curiosamente, no mesmo ano, apenas dois vencedores da Algarvia acumularam o sucesso com a vitória na Volta a Portugal. Manuel Cunha em 1987 e Fernando Carvalho em 1990.

Numa prova que tem sido dominada, nas últimas edições, por estrangeiros, depois de um longo domínio português, foi o brasileiro Cássio Freitas a romper com essa tradição, em 1993. Vitória que repetiria em 1995, ambas ao serviço da equipa portuguesa do Recer/Boavista.

Dos vencedores com títulos acumulados em grandes Voltas (Zulle, Mauri, Contador e Thomas), às seis etapas, todas as que compunham a edição 1997 que Cândido Barbosa venceu, passando pelos quatro segundos lugares de Marco Chagas, sem nunca ter vencido a competição, ou pela Volta 1991 em que Joaquim Andrade (neste caso, o filho, porque o pai também ganhou a Volta ao Algarve, mas em 1978) acabou por vencer com a ajuda de apenas dois companheiros de equipa que restaram (Carlos Pinho e José Poeira), a Volta ao Algarve faz parte do culto do ciclismo nacional. E nesse culto, não podemos apagar a infeliz chegada a Quarteira, que em 1984 nos “tirou” Joaquim Agostinho.

Esta dimensão internacional é obviamente importante, mas nunca nos poderemos esquecer que para dar dimensão a algo, sobretudo numa modalidade que vive de feitos e de estórias, felizes e infelizes, é importante enquadrar o que é a Volta ao Algarve e porque é que os portugueses gostam dela.

A Volta ao Algarve é muito mais que este elan criado nos últimos anos. É uma parte importante do ciclismo português. E se há Volta no Algarve, foi porque alguém se lembrou de a idealizar, fazê-la crescer, sustentá-la. Também os ciclistas, há muitos anos, fazem o resto.
Luís Gonçalves

1 comentário a “Há Volta no Algarve”

  1. Já na “nova” era da Volta ao Algarve convém não esquecer as vitórias do Hugo Sabino (2005) e do João Cabreira (2006)
    A vitória do Sabido ficou algo manchada pelo facto de nesse ano só terem terminado a prova pouco mais de 30 corredores, já a do Cabreira foi conquistada na subida ao Malhão no último dia no meio dos principais corredores internacionais presentes.
    Até aos dias de hoje mais nenhum corredor Português ganhou está competição tendo eu a esperança que o Tiago Machado este ano é um dos candidatos à vitória.

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