Do direito de opinião aos cursos de treinador

 

Escrever textos e emitir opiniões para um público relativamente vasto, implica sempre alguma dose de masoquismo. Há sempre quem fique agradado, mas também há sempre quem fique desagradado, alternando ambos com frequência, dependendo do assunto, ou da forma como se aborda o assunto.

Quem escreve, sob a sua visão, tem de saber isso, conviver com isso e conformar-se com isso e, importante, preparar-se para quem percebe de forma distorcida a mensagem que se pretende fazer passar. Os textos, são muitas vezes, meros veículos de lançamento de discussão deixando em aberto, de propósito, algumas questões. Pessoalmente, devo dizer que não será rara a vez em que concordo com quem rebate ou acrescenta, útil e fundamentadamente, algo às minhas ideias. Noutros casos até acho piada aos comentários que se fazem, em redes sociais, onde não estou. Divertem-me, sobretudo pela parcialidade que alguns carregam!

No âmbito, à conta desta espécie de pequena exposição pública, sem ser especialista em nada, mas estando sempre disponível, tenho tido debates frutíferos com alguns e recusa de discussão de ideias por parte de outros, mesmo em áreas sensíveis, onde deveríamos todos pedalar para o mesmo lado. A título de exemplo, devo dizer, e penso que ele não se incomodará com a referência, que o meu primeiro contacto pessoal com o Sérgio Sousa derivou de uma forte discordância em relação a um artigo. Mas desde aí, discutiu-se o assunto, fala-se oportunamente sobre outros temas, compreendo a posição dele como dirigente da Federação e ele compreenderá a minha. Não tenho problema nenhum em admitir que algumas ideias federativas são boas, e outras merecem a minha crítica negativa. Outros, que não dirigentes federativos e que até passam por mim com frequência, preferem virar a cara para o lado.

Bem, no contexto, porque estas coisas não surgem por acaso, nos últimos tempos tenho sido abordado pelo tema dos graus de treinador.

Estamos numa modalidade onde, pelo que implica em logística e tempo, não é fácil encontrar pessoas com disponibilidade absoluta para fazer uma época inteira ou, mais difícil, sucessivas épocas inteiras. Pré-época, treinos, logística, inscrições, patrocinadores, problemas, corridas…

Também sabemos que muitas vezes, quem se demonstra disponível, são pessoas que de certa forma já tiveram ou têm alguma ligação à modalidade e que até querem prosseguir. Mas são estes que, vezes a mais esbarram nas normas previstas para a formação de treinadores, ordenadas pelo IPDJ.

Em teoria, concorda-se com o IPDJ. Quer treinadores mais formados, portanto, à partida, mais capazes. Mas, nomeadamente para quem exerce actividade profissional noutra área (como quase todos, nos escalões de formação), se o período de duração da formação como treinador já é um obstáculo grande, tal como as renovações obrigatórias que para quem está comprovadamente a exercer o cargo nem se compreendem muito bem, maior questão tem sido o grau de escolaridade exigido a alguns candidatos a treinadores.

No ciclismo, e porque qualquer norma carrega algumas injustiças, diremos, actualmente, ficam afastados da possibilidade de atingir um determinado nível de treinador, alguns dos ciclistas com carreiras mais longas e produtivas na modalidade. Não me parece justo.

Pior será dizer que o mesmo IPDJ (o Estado), que exige graus académicos aos treinadores, que muitas vezes foram atletas, é o primeiro a ter poucas medidas de apoio, designadamente de âmbito escolar, à grande universalidade de praticantes desportivos. Os apoios são diminutos e demasiadamente concentrados num grupo restrito de praticantes, bem diferente das necessidades de todo o grupo. Não é só o campeão nacional de Juniores que treina.

Os próprios estabelecimentos de ensino dedicados à Educação Física, têm olhado com algum desdém para o ciclismo, e para outros desportos, se reflectir-mos sobre as equivalências aos graus de formação de treinador. E o IPDJ, assobia para o lado.

E, se nessas universidades não se fomenta essa prática, local onde preferencialmente, para as políticas desportivas do Estado, parecem estar os treinadores do futuro, mais tarde ou mais cedo teremos um sério problema no ciclismo e noutras modalidades. Ou isso, ou algumas Federações, na medida que possam, durante uns tempos, também terão que assobiar um bocadinho para o lado sob pena de, não conseguindo captar atenção externa, também afastarem os que já estão dentro da modalidade, mesmo alguns jovens.

Não é esta uma questão que se ponha diariamente e muitas equipas estão conformes. Nem sequer é muito mediática e espalhafatosa. Contudo, importante. Sem discutir inegáveis capacidades às pessoas, nem ignorando as desconformidades, às vezes não deixa de ser preocupante olhar para uma reunião de directores de escalões de formação (sobretudo na estrada) e avaliar a média de idades ou tentar adivinhar a idade da pessoa mais nova que lá está, e por quanto tempo estará na modalidade que, como todas as outras, precisa de se renovar.
Luís Gonçalves