Ainda a Volta ao Algarve e a televisão, ou melhor falta dela

Já muito se falou do ostrascismo informativo que a grande maioria dos Orgãos de Comunicação Social enfermam, em tudo que diga respeito a ciclismo. É um facto que, por mais argumentos que se nos apresentem, não tem justificação.

O ciclismo é uma das modalidades com mais tradições na cultura desportiva nacional, fazendo parte do imaginário coletivo do nosso povo, atravessando gerações, enquadrando-se atualmente como uma das disciplinas desportivas que mais se enquadram na filosofia dos desportos modernos: contacto com a natureza, sensação de liberdade, não poluente e uma das mais adequadas para a condição física do ser humano.

Na Volta a Portugal, nos anos 40 e 50 o povo apinhava-se nas sedes dos jornais para”assistirem” às informações do decorrer das etapas.

O ciclismo ganhou um novo público nos últimos anos, soube-se adaptar às novas  necessidades de uma sociedade sempre em evolução. Poucas são as que têm um público tão numeroso, ainda hoje, na jornada que antecedia a Volta a S.Juan, cerca de 100 mil pessoas assistiram ao critério noturno de S.Juan.

Em Portugal, as principais provas arrastam milhares de pessoas, atingindo o topo, muito naturalmente, na Volta ao Algarve e Volta a Portugal. Ambos os eventos só serão suplantados, em termos de audiência por alguns jogos de futebol, entre os chamados grandes. Diremos que ao nível destas duas competições, teremos o Raly de Portugal e, que nos lembremos assim de repente, nada mais. O ténis, que as estações televisivas tanto transmitem, tem o Open do Estoril de bancadas vazias, e zonas VIP recheadas de nomes .

Talvez por isto, não estamos de acordo com o comentário de Carlos Fernandes, que enferma por alguns pontos que não estarão corretos.

Como empresa pública , aqui sim, paga com o contributo de todo  os portugueses, competiria à RTP  ter uma atitude cognoscente, contribuindo para uma maior cultura desportiva da nossa sociedade.  Ora o que acontece é que, curiosamente, a RTP , apesar de pública, é a estação que mais promove uma disciplina ( futebol) em detrimento de todas as outras. Ele é futebol em todas as dimensões; de praia, futsal, feminino não falando em todo o tipo de reportagens e ações que visam promover esta modalidade, sempre em detrimento das chamadas amadoras, remetidas na sua maioria para um pacote informativo no 2º canal, com conteúdos informativos desadequados e fora de tempo.

Isto é verdade e não pode ser escamoteado, porque todos nós abrimos a televisão e vemos, sentimos e temos que ” comer” o que nos apresentam. Por isso, não seria mau em termos de audiência para a RTP transmitir a Volta ao Algarve, no 2º canal em canal aberto, com as imagens cedidas pela organização da prova, como o faz para a TVI e para a Eurosport, de quem a organização recebe pouco, mas recebe algum, pelos direito de transmissão da prova um pouco por todo o mundo. E é por isto que a Região de Turismo do Algarve apoia uma prova que é transmitida para todo o mundo e que faz parte de um pacote publicitário que esta região publicita no referido canal desportivo, a exemplo de muitas outras regiões de muitos outros países.

E é pena também, porque é, precisamente a RTP que tem os melhores comentadores de ciclismo, e os jornalistas que mais gostam, compreendem e sentem a paixão pela modalidade.

PS – Sem nos arvorarmos em defensor da FPC, importa referir que a divida que existe com a RTP, no valor de 140 mil euros, foi contraída por um organismo autónomo, do ponto de vista financeiro e administrativo, não cabendo naturalmente à FPC assumir dividas de terceiros.

JC