Os antípodas

Percorrendo o globo mundial que é o nosso planeta, podemos ver que quem está, de forma evidente, do lado oposto ao nosso, do outro lado do mundo, é a grande massa continental que é a Austrália e, a Nova Zelândia. Os nossos antípodas.

Mas não é só de geografia, desta forma de geografia, que se faz o mundo. Os australianos, em diversos modos de vida, estão de facto do lado oposto ao nosso.

Vem isto a propósito do que se faz nas zonas de partida e chegada do Tour Down Under. Como já foi aqui notícia, zonas de diversão, comércio, restauração, provas de bicicletas para todos os gostos e feitios, tudo o que se possa fazer para entreter e segurar o espectador durante a longa espera pelos ciclistas. Isto para além do Tour Down Under feminino, que decorreu antes do masculino.

Certo é que os australianos gostam do evento, gostam do que lhes é proporcionado pela organização e, de boa vontade, colaboram com a vontade comercial que a organização também tem quando investe nesta panóplia de estruturas que, para além de diversão, e de alguns “souvenirs”, também fornecem serviços e venda de produtos, maioritariamente relacionados com a modalidade, uma verdadeira feira promocional do ciclismo.

Ora, em tempos, já aqui narrei a estória do italiano que fazia toda a Volta a Portugal e que ao chegar às terras por onde a caravana passava, ainda integrado na caravana publicitária, anunciava meias, bonés, t-shirts, o que levava ao aproximar de uma pequena multidão que quase na totalidade dispersava quando o homem anunciava “tutto à mille” (tudo a mil escudos!).

De facto, o ciclismo em Portugal, vive ainda muito da cultura do brinde, às vezes, “prémios” que não servem para nada, retirando a utilidade que as t-shirts e os bonés ainda vão tendo. Para a maioria dos que vão a algumas zonas de meta, o sucesso de uma organização, só se mede pelo que consegue distribuir. Não é raro assistir ao desabafo “nem um bonézito deram!”. A chegada dos ciclistas pode ter proporcionado um sprint excepcional, mas, não distribuíram bonés!

Um desabafo frequente, por exemplo, na Volta ao Alentejo. Porque na Volta a Portugal, o volume de brindes já agrada mais. Aqui há até as pulseiras para a zona VIP. Qualquer um se sente importante no clube da volta. Não sabe o que é uma roda de uma bicicleta, nem quem ganhou a Volta do ano anterior (ou dos outros anos…), mas consegue comentar a falta de sandes de entremeada e o facto de já não existirem copos para servir espumante. E alguns parece que já não comem nem bebem há vários dias!

Todos gostam, mas o tuga gosta especialmente de coisas “à pato”. Ou seja, na esmagadora maioria dos casos, se estivessem na Sertã ou em Mação, seriam incapazes de comprar maranhos em qualquer estabelecimento proporcionado pela organização, mas estando disponível gratuitamente até levam num guardanapo para casa.
Naturalmente que as organizações se deixam levar na onda, sobretudo no Sul da Europa. Os belgas são já um mundo à parte. Por aqui, será mais uma questão cultural do que propriamente organizativa.

O regresso de dois grandes clubes trouxe algum sal a isto. Já há quem se desloque para ver a logística e os ciclistas do SportingCP ou do FCPorto, aproveitando para ver também o cenário de equipas que já se consegue montar numa corrida portuguesa, que não seja a Volta ao Algarve. Não é fácil, sobretudo nalgumas terras, mas quanto mais juntas estiverem as equipas melhor. A agitação e logística de todas, compensará razoavelmente bem a ausência de muita animação.

Claro que o conceito ideal seria o do Tour Down Under. Sempre numa escala inferior e adaptada à nossa realidade, bem diferente da australiana. Uma cultura diferente da criada pelo Tour, algo esgotada, e que o próprio Tour também já pondera. Não sendo nós anglófonos, muito menos os franceses, talvez o sucesso a curto prazo, para as grandes provas, porque não se pode acabar com tudo de repente, esteja num regime misto. Os belgas fazem-no bem. Mas, provavelmente, por este andar, os nossos antípodas estarão cada vez mais longe de nós.
Luís Gonçalves