Onde começa a veterania ? – Dá-se demasiada importância aos veteranos e a retribuição é bem pior do que melhor

Quando olhamos para a composição de algumas equipas profissionais, ou com alguma atenção para os resultados que nos vão aparecendo nas mais variadas vertentes do ciclismo, com frequência, pode-nos surgir a questão sobre onde começa a veterania.

No contexto, se é certo que as normas têm carácter internacional, nunca deixará de ser estranho poder atribuir um título de campeão nacional no escalão A dos veteranos (ou masters, como é de regulamento) a quem tem 29 anos, como há não muito tempo sucedeu num campeonato nacional de ciclocross. Mesmo tomando o exemplo do campeão nacional deste ano, neste escalão, penso que nos dará 31 anos, praticamente a mesma idade do vencedor do principal escalão, Elites.

Ora, se tempos houve em que no mundo desportivo quem tinha 30 anos estava “acabado”, o que nem será bem assim, nos tempos que correm, a durabilidade dos bons desportistas está cada vez mais garantida. No ciclismo então, sem ser preciso recorrer a Rebellin, pela velha máxima podia-se dizer que os últimos vencedores do Tour são veteranos, e o último campeão do mundo é super-veterano!

Voltando aos panoramas nacionais, sobretudo dos países latinos, sabe-se que a inscrição nestes primeiros escalões de veteranos, excluindo a possibilidade de disputar provas em Elites onde, normalmente, ganham ciclistas com idades semelhantes, está sobretudo centrada na ânsia de mostrar sucesso que conseguem alcançar nos veteranos A, mas nunca como Elites.

As Federações, que têm de se sustentar, aproveitam a onda. No último campeonato nacional de ciclocross, a parte substancial dos inscritos provinham de escalões relacionados com veteranos, o que não dirá bem de nós. Se consigo perceber o escalão de Veteranos B (portanto a partir do ano em que se completam 40 anos), custa-me cada vez mais a perceber os escalões (de veteranos) inferiores a este, sobretudo quando se fala de atletas femininas. Note-se que por exemplo, e bem, a Isabel Caetano e a Irina Coelho, não dispensam correr em Elites.

Neste campeonato nacional foram criados mais três escalões de veteranos (dois para femininos), onde as participações foram residuais. Não há aqui atribuição de títulos nacionais, mas há distribuição de medalhas e cerimónias de pódio com um participante.

E olhando para o futuro, na estrada, penso que se mantém aquela “treta” dos veteranos divididos em escalões de cinco em cinco anos. Deve dar quase uma camisola de campeão nacional por cada dez ciclistas! Algo que tira prestígio a qualquer título nacional. Para além de que, nestes moldes, parece que estamos a fazer “formação” de veteranos, quando têm de ser escalões a existir apenas para passar o tempo, de preferência, de forma saudável.

Não o fará, mas em tempos modernos, até pelos bons exemplos que temos tido no Worldtour, deveria ser a própria UCI, a ponderar onde começa de facto a veterania. Sobretudo no âmbito nacional, estão-se a confundir idades e escalões acabando por se tirar algum mérito a quem conquista os títulos em escalões a sério e, pior, ofuscando-se até em demasia e com frequência os verdadeiros escalões de formação de ciclistas. Porque se nós, habituados a estas andanças, percebemos o que nos envolve, um estranho, que pode vir a ser um patrocinador, confunde-se todo com este esquema. Dá-se demasiada importância aos veteranos e a retribuição é bem pior do que melhor.
Luís Gonçalves

1 comentário a “Onde começa a veterania ? – Dá-se demasiada importância aos veteranos e a retribuição é bem pior do que melhor”

  1. Não podia estar mais de acordo com o texto.

    São tantas as camisolas de Campeão Nacional que só veio retirar o mérito dos verdadeiros atletas de competição.

    Quer-me parecer que tal como a Mercedes fez com a AMG a Federação está a fazer o mesmo com a distribuição de títulos nacionais tentando assim obter mais filiações e com tudo o que isso acarreta nomeadamente na distribuição de verbas por parte da tutela do orçamento do estado, pela distribuição de tempo de antena para conteúdos na RTP 2 ao abrigo do serviço publico, entre outras claro.

    Aliás, com a enorme quantidade de Granfondos existente actualmente (que assim numa análise muito rápida já andam perto de uma vintena) um destes dias ainda vamos ver ser atribuído mais uma camisola de campeão nacional, ou melhor, muitas mais pois por certo irão haver vários escalões.

    Sobre os veteranos e os granfondos, tomando como referencia o testemunho nas redes sociais de vários atletas não será de admirar se um destes dias um participante cais para o lado com mais uma morte súbita no desporto.

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