O regresso do Benfica…

Não. Desiludam-se os adeptos do emblema encarnado. Não está marcado para 2019 o regresso do Benfica às estradas portuguesas. O regresso que se assinala, tem já vinte anos, remontando a 1999.
De facto, volvidos outros tantos anos de ausência, há precisamente vinte anos o Benfica regressava ao ciclismo, integrado no lote das então equipas de segunda divisão, que seriam, por semelhança, as continentais profissionais, e que contava com a presença de mais três equipas portuguesas.

Apesar de contar no plantel com um vencedor da Volta a Portugal, Jorge Silva, inevitavelmente, a estrela maior era o espanhol Melcior Mauri, nomeadamente, vice-campeão do mundo de CRI e vencedor de uma Vuelta. Não defraudou expectativas. Entre outros triunfos, venceu o GP JN e deu ao Benfica a única vitória na Volta ao Algarve da história do clube. Quintino Rodrigues, ganhava o Porto-Lisboa, ainda hoje, apesar de extinta, expoente máximo das clássicas portuguesas.

Mas a cereja no topo do bolo deste regresso não podia deixar de ser a conquista da Volta a Portugal 1999. Numa Volta com 18 boas equipas, pensava-se em Mauri, mas foi outro espanhol, David Plaza, que arrebatou o título. Arrebatar, talvez seja a palavra certa para esta Volta. Isso, ou arrancar, porque ao fim de vários dias na liderança, conseguida depois de um CRI entre Portalegre e Marvão, quando finalmente já se pensava na vitória de Vitor Gamito, num célebre CRI em Cantanhede, tudo parece ter corrido mal ao português e favorecido os espanhóis. Mauri vencia o CRI e Plaza a Volta.

Na última das 14 etapas de então, entre Águeda e Matosinhos, uma consagração, trouxe milhares de bandeiras e cachecóis do clube para a estrada (há altura, sedentos de apanhar algum ar de sucesso) e uma verdadeira maré vermelha a Matosinhos. O letão Romans Vainsteins, no ano seguinte campeão do mundo de fundo, venceu a etapa.

Deve ter sido a única vez que vi capas de jornais completas a referir uma vitória na Volta a Portugal em bicicleta, com os ciclistas a serem recebidos em delírio no antigo estádio da Luz. Enfim, também eram tempos de propaganda.

O projecto, este projecto, esteve mais um ano na estrada, terminando de forma conturbada, a mesma que envolvia o clube, antes do início da época 2001. Acumularam-se prejuízos para os envolvidos, discussões de contratos e de outras espécies, numa luta mais de política interna do clube do que de racionalidade.

Depois disso, tal como esta, as presenças do clube no pelotão têm sido voláteis. O ciclismo é muitas vezes uma modalidade usada para dar algum fervor de vitória ou empolgar as massas de adeptos, um apelo relativamente fácil a tempos gloriosos dos grandes clubes. Situações de uso descartável que, nomeadamente no caso do Benfica, ferem com gravidade as origens do clube, do próprio símbolo. O exemplo de 2007/2008 também não é simpático.
Mas, apesar disso, nunca deixará de ser verdade que bastará um rumor de regresso do Benfica para agitar o mercado. Nem se compreende muito bem porque é que a instituição Benfica não tem equipa de ciclismo. Para os zeladores da verdade, diga-se que o ciclismo não é melhor nem pior do que o futebol, nem tem mais ou menos vícios do que o futebol, nem nunca será uma mentira maior do que o futebol.
Luís Gonçalves

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