O verdadeiro espírito associativo no ciclismo

Mais do que instituições, o ciclismo nacional sempre foi construído por pessoas. Aqui, ao contrário do que é normal, não são os ciclistas em exercício os protagonistas, mas gente, tantas vezes quase anónima que vai sustentando a modalidade.

Não se pretendendo referir nomes, porque estaríamos nessa tarefa vários textos, e mesmo assim sem dúvida que cometeríamos injustiças, a força da modalidade vem das pessoas que comandam as diversas associações. E com associações naturalmente que mais expressivamente se referem as associações de base, as equipas, sobretudo nos escalões de formação, verdadeiros e autênticos alfobres do ciclismo nacional, e as várias associações regionais de ciclismo que exercem importante função de controlo e divulgação da modalidade em cada território.

Ora, nas equipas (de escalões de formação), apesar da coisa parecer ir andando, o certo é que muitas já se debatem com alguns problemas, muitos de natureza económica mas, nos tempos que correm, vários relacionados com colaboradores. Ou seja, se até é relativamente fácil encontrar alguém para prestar auxílio numa prova, sobretudo nas mais importantes, já é extraordinariamente difícil arranjar alguém para uma época inteira. Uma época que não se faz só de corridas! Há a pré-época, treinos, logística de vários aspectos, preocupações… O compromisso exigido, até porque as regras estão cada vez mais apertadas, também é cada vez maior e já há pouca disponibilidade ou espírito associativo para isso. E os que vão aparecendo e que o têm, o espírito, porque dinheiro não há, esbarram, tantas vezes em questões procedimentais, legais obviamente, mas que para a máquina continuar minimamente oleada e a sustentar-se terão obrigatoriamente que ser um pouco postas de lado. As regras também exigem adaptabilidade. Isto sob pena de também essas pessoas abandonarem a modalidade, onde às vezes já estão há vários anos.

Se nas equipas já não abunda verdadeiro espírito associativo, a questão parece tornar-se mais complicada nas associações regionais de ciclismo. Pilar fundamental da modalidade, se há associações que demonstram alguma pujança, a verdade é que a maioria passa ou passou tempos difíceis. Algumas, existentes ou até já extintas, problemas económicos, outras os tais abundantes problemas com pessoas.

Depois dos ímpetos iniciais há uma forte tendência para o esmorecimento. A verdade é que a critica é feroz, sempre pronta para as palmadinhas nas costas quando as coisas correm bem e arrasadora quando escapam alguns pormenores. Alguns projectos começaram de forma vigorosa, mas rapidamente tomaram consciência do mundo em que se moviam e que porventura não conheciam assim tão bem. Lá está, mais do que a instituição, idealizada, criada e registada, quem a sustenta são as pessoas.

E se nalgumas associações até se tenta dar um toque de juventude e modernização, noutras, a maioria dos corpos sociais que as compõem, nomeadamente as direcções, são já bastante conhecidas! Mas até aqui há uma contrapartida. Há direcções que se demitem, pretendendo cessar as suas funções de dúzias de anos mas, não raras vezes, não aparece ninguém para os substituir. Com frequência, temos uma direcção demissionária que poucas vezes se renova.

Não é uma questão exclusiva do ciclismo. Talvez o próprio Governo do Estado tenha que se debruçar seriamente sobre isso, porque o espírito de missão associativa está a esmorecer em demasia, sobretudo entre os mais jovens. Num estilo de vida cada vez mais intenso, também são em demasia as barreiras que se colocam ao associativismo, que exige um compromisso cada vez maior. Já não se faz nada sem quilos de papelada e se calhar algumas coisas só corriam bem porque não eram feitas dessa forma. Caberá também a cada Federação, dar séria nota dessas dificuldades, distinguindo bem cada zona de actuação. Não se podem nem se devem”substituir” todas as associações, muito menos varrer para baixo do tapete.

No quadro, só poderemos dar imenso valor a todas as pessoas que, desinteressadamente, nalguns casos verdadeiros faz-tudo, continuam a construir o ciclismo. Dizia-me há uns tempos, um dos responsáveis da equipa da Casa do Benfica de Belmonte, que para estar ali, naquela prova com os seus jovens ciclistas, tinha a sua loja, o seu ganha-pão, fechado há dois dias. Outros terão dificuldades idênticas ou piores e continuam a ir às corridas, às vezes, para insensivelmente e com uma boa dose de estupidez ouvirem o que não querem de quem lá está a ser bem remunerado! Como em tudo, há de tudo. Os desinteressados continuarão enquanto os deixarem.
Luís Gonçalves

1 comentário a “O verdadeiro espírito associativo no ciclismo”

  1. Mas será que no que se refere às associações regionais de ciclismo haverá mesmo um verdadeiro espirito associativo?
    Na esmagadora maioria das associações confunde-se a direção com os comissários não se sabendo quem é quem sendo uma da maneira de conseguirem nomeações para as provas de ciclismo. Para outros será a única maneira que têm para poderem sair de casa e até poderem viajar mas obviamente que não podemos generalizar sendo que há algumas poucas excepções e que estão no ciclismo com o verdadeiro espirito associativo mas serão mesmo muito poucos.
    A norte há uma excepção onde está tudo devidamente balizado.
    A federação tem a noção da verdadeira realidade das associações e tarda em tomar medidas pois o modelo actual fruto de uma serie de situações está completamente desactualizado tendo o pouco poder que as associações detinham sido retirado com a alteração estatutária efectuada há um par de anos atrás.
    A federação pelo menos na estrada é cada vez mais um organizador e não a tutela da modalidade chegando nalguns casos a não dar o exemplo aos outros organizadores de corridas.
    As associações deveriam ser substituídas por delegações da federação com um ou dois funcionários a tempo inteiro.
    Ao nível das equipas com a questão do treinadores nível 3 ou 2 veio complicar muito a vida aos clubes, a isto pode-se juntar muitas vezes a prepotência dos comissários a falar com esses voluntários e muitas vezes mecenas.
    Mas palavra leva-as o vento e este texto não passa de palavras que o vento irá levar sem qualquer consequência.

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