Da Renault à nova Sky

Em linhas simples, no final dos anos setenta do século passado, uma equipa dominou e lançou os fundamentos do que hoje, com as devidas adaptações, vemos no ciclismo.

Passados menos de vinte anos da reintrodução de equipas comerciais no Tour, abandonando-se o modelo de selecções que durou várias décadas, no meio de algumas equipas frutuosas, no final dessa década de setenta surge a Renault. Com embrião em equipas ligadas à Gitane, talvez a denominação mais conhecida da equipa seja Renault/Elf/Gitane.

Com métodos inovadores para a época, com um orçamento superior ao das concorrentes, durante cerca de uma década esta equipa dominou o ciclismo. Se considerarmos o barómetro do Tour, num curto espaço de tempo foram seis as vitórias, alavancadas por grandes estrelas como Bernard Hinault e Laurent Fignon. Esta equipa, para além de outras provas importantes, estendeu ainda o seu domínio ao Giro e à Vuelta, factor essencial que a distinguirá das subsequentes, sobretudo da US Postal.

Mas como diz o ditado popular “rei morto, rei posto”, e a saída de cena da Renault deu origem ao domínio de uma equipa que já existia, e continua a existir (Movistar), mas que para sempre será temida como Banesto. Miguel Indurain, escudado por uma forte equipa, construiu mais uma lenda no ciclismo, em imagens que não conseguimos separar do chorudo patrocínio bancário.

Foi-se Indurain e a Banesto temida, ficou outra Banesto, e surgiu uma nova era no ciclismo. Pode-se dizer que entrámos definitivamente no ciclismo moderno, tecnológico, metódico, muito beneficiando do tempo em que o mundo entrava. A US Postal e Lance Armstrong, à conta também de um orçamento elevado, trouxeram para o ciclismo conceitos até então inimagináveis na modalidade. Obviamente que não falamos dos conceitos que também tornaram Armstrong famoso, e que não foram inventados por ele, mas de uma era em que a ciência passou a imperar.

Mudaram-se formas de pedalada, materiais da bicicleta e métodos de treino que se adaptaram ao modelo científico, porque era então possível fazê-lo com a ajuda dos novos meios tecnológicos.

Idealizou-se, ou aperfeiçoou-se, um sistema de domínio táctico em prova, avançando-se para uma especialização das equipas. A US Postal, tinha um objectivo e a Saeco, de Cipollinni, tinha outro, ambos metodicamente cumpridos. As exigências actuais deixaram de lado a possibilidade de alcançar todas as camisolas. Gostemos ou não, Armstrong e a US Postal, lançaram as bases do ciclismo que temos hoje e que tantos apreciam.

É já nesse contexto que surge a Sky, que vem ainda mais exagerar a tecnologia, dando-nos a nova expressão de “ganhos marginais”. A Sky não caiu do céu aos trambolhões. Faz parte dum processo evolutivo do ciclismo em que os milhões são cada vez mais importantes e, diga-se, apreciados pela UCI. No fundo, apesar de tentar contrariar este tipo de domínios, acaba por ser a UCI, e outras entidades, o rastilho destes projectos megalómanos.

A forma como está organizado o Worldtour tem sido o principal impulsionador das Sky’s e de investimentos ocasionais como o de Oleg Tinkov, nomeadamente. O ciclismo será cada vez menos romântico e mais rentável, nem que seja durante um curto espaço de tempo. A um projecto sucede-se outro. Rentável para todos, porque ainda hoje vemos na estrada camisolas da Renault, da Banesto e da US Postal, tal como veremos durante muitos anos da Sky. Isto para além dos produtos comerciais que ajudam a lançar à escala global.

Durem muito ou pouco, estas equipas, associadas a estes patrocinadores, terão sempre um dom. De certa forma, pelo seu domínio, mudam por imposição o curso da história da modalidade, lançando-a sucessivamente na modernidade ou em modernidades alternativas. São obviamente diferentes das equipas de consumo nacional, às vezes é uma modernidade que não nos agrada muito, mas também necessária na sustentabilidade da modalidade.
Ora, tendo em conta o modelo histórico, e sem ilusões, qual será a nova Sky?
Luís Gonçalves