O ciclismo é muito mais que ver corridas e pensar em watts

Sabemos todos que o ciclismo é um desporto feito por duros e para duros. Sempre foi e sempre será. Por isso mesmo retratar o sacrifício da modalidade é um acto difícil. Terá sempre de ser enquadrado, como qualquer aspecto histórico, no seu tempo. Ou seja, não é por as bicicletas serem agora mais leves e funcionais, ou as estradas visivelmente melhores, ou por tudo o que rodeia os ciclistas lhes facilitar a tarefa, que o ciclismo deixou de ser um desporto de forte exigência física e mental.

No entanto, se recuarmos no tempo, veremos sempre que todas as facetas da sociedade exigiam porventura um sacrifício maior. Sem recuar muito, e porque se pretende de certa forma homenagear Joaquim Leão, rumemos às agruras da Volta a Portugal de 1964, que este Leão, com as cores do FCPorto, venceu.

Entre catorze equipas, alinharam à partida das 20 etapas, 101 corredores. Pelas agruras e amarguras da estrada ficaram pelo caminho 60 ciclistas, terminando a prova 41 bravos. Joaquim Leão sucedeu a João Roque, terceiro na edição de 1964, e chegou 44 segundos à frente de Jorge Corvo, o nosso Poulidor, com a então maior média de sempre, superior a 39 Km/h.

Por falar em Poulidor, também no Tour de 1964, à semelhança do algarvio Jorge Corvo por Portugal, era o francês que ficava em segundo, sendo batido pelo compatriota Anquetil. Apenas, curiosidades que se cruzam.

Voltando à sangria do pelotão da Volta, não podemos alhear-nos do facto de entre as 20 etapas, cinco terem distâncias superiores a 200 Km, algumas sob a canícula alentejana que, apesar de parecer, não foi só uma invenção da Volta deste ano de 2018!

Já se sabe, a paragem nas fontes era obrigatória, o alcatrão, quando existia, colava-se aos pneus e fazia colar os pneus à estrada. Entre fontes e abastecimento pelos carros de apoio, abastecimento ainda minimalista, o que nunca se contava era o reverso, ou seja, os ciclistas a abastecerem o carro de apoio. Quando um radiador deixa de funcionar e exige água constante, num acto próprio do português, o desenrasca, foram os ciclistas a abastecer com os seus bidons o radiador! Se hoje existem algumas discrepâncias entre equipas, já não eram inéditas em 1964. Esta mesma equipa sem grandes meios, Baixa da Banheira, já em dias anteriores tinha proporcionado noites de descanso aos membros acompanhantes (treinador, mecânico, massagista e diretores) dentro do mesmo carro com o radiador avariado. A palavra de ordem era poupança. Ciclistas “luxuosamente” instalados no quartel de Bombeiros, e demais staff a tentar dormir dentro do carro de apoio…

Cenas quase impensáveis nos dias que correm, mas quotidianamente banais em 1964. É neste contexto de sacrifícios, e entre greves por falta de pagamento de salários, que surge o vencedor Joaquim Leão, personagem que tive oportunidade de conhecer, já há uns anos, no seu estabelecimento comercial em Sobrado. Na companhia de amigos (dele e do seu tempo) recordo uma pessoa afável. Isto apesar do “facalhão” que tinha em mãos, que tanto cortava, presunto, como broa, bacalhau ou separava boletins de totoloto, precisando apenas de uma ligeira limpeza no avental entre ofícios. Um quadro com medalhas, fotografias, paredes com história de bicicleta, mais estórias, muitas para contar, do ciclismo.

O ciclismo é muito mais que ver corridas e pensar em Watts. Sem potenciómetros e com poucos meios, Joaquim Leão, como outros, contam grandes feitos da e na modalidade. Quem não tiver curiosidade em perceber isso, nunca saberá verdadeiramente o que é o ciclismo.
Luís Gonçalves

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