Ser herói popular

O desporto moderno, em boa medida, vive de mediatismo. Numa modalidade que sempre teve um cariz imensamente popular, naturalmente que o ciclismo e os ciclistas não podem passar ao lado desse fenómeno.

Se olharmos para dentro, para Portugal e para as nossas competições, não temos tido grandes exemplos de sucesso mediático acima da média entre os ciclistas. Não se reporta aqui o sucesso alcançado entre os adeptos mais fiéis da modalidade, esses, normalmente conhecedores do pelotão nacional, muitas vezes dos seus vários escalões competitivos.

Provavelmente, durante os últimos quinze anos, ao acesso fácil do grande público teremos tido apenas três exemplos: Vitor Gamito, Cândido Barbosa e Rui Sousa. Pouco, muito pouco, para uma modalidade que continua a ter um lugar especial no coração dos portugueses.

No contexto, muito se tem falado na saída de cena competitiva do Rui Sousa que deixou um vazio no grupo dos verdadeiros heróis populares, numa modalidade que sempre dependeu destes, mesmo antes das invenções do marketing.

Ficou um grupo jovem, com potencial, felizmente, em alguns casos, melhor pago do que em tempos recentes mas onde, ainda, não se vê nenhum pronto para abraçar esta característica de ser herói popular.
Ser herói popular dá trabalho, muito trabalho. Embora ajude, não basta ganhar corridas. É preciso ser e estar disponível todos os dias, em qualquer prova, corra bem ou corra mal, para quem se aproxima e, com a facilidade que deve continuara a ser característica do ciclismo, aborda o ciclista na rua. Começa por se construir por aqui o herói popular mas, meus amigos, por mais que se trabalhem estas facetas, sem carisma, não há nada para ninguém.

O que se tem notado na geração mais recente é alguma reclusão em relação ao contacto directo com o público. As ferramentas da internet ajudam a alguma interactividade, mas em última instância o que o fã quer e continuará a querer é uma fotografia, um autógrafo, uma recordação ou simplesmente falar com o ídolo. Nesse aspecto, por mais que se trabalhe com redes sociais, sem uma disponibilidade sorridente em público não se chega nunca a verdadeiro herói popular. Apesar de não parecer o país é muito mais do que a internet. E mais do que qualquer estrutura publicitária de equipa, compete ao ciclista a sua promoção.

Rui Sousa, tal como o Cândido Barbosa, nunca ganharam a Volta a Portugal. Mas não é por causa disso que não deixam de ser heróis da Volta e das massas populares. Pela tenacidade que sempre demonstraram em prova e muito porque souberam criar empatia com o grande público. A determinada altura o Cândido até conseguiu que os populares fossem de bandeira portuguesa para a berma da estrada! Sempre pronto para a foto, o Rui Sousa, foi dos únicos ciclistas que vi que agradecia a quem lhe pedia um autógrafo!

O Vitor Gamito continua a fazer a sua bicicleta desenhada quando dá um autógrafo. É um acto que cria proximidade.

Voltando ao pelotão actual, e da próxima época, temos potencial, mas é preciso mudar alguns comportamentos. Enfim, os autocarros, apesar de darem uma boa conta da modalidade, também vieram estragar alguns prazeres.

Mas não é por isso que não devemos ser próximos dos adeptos. Alguns ciclistas nunca terão o carisma suficiente. Outros, que até podem ganhar várias Voltas, nem sequer habilidade. E outros até terão carisma aos potes, mas uma habilidade estranha.

Para todos só posso dizer, aproveitem bem os grandes exemplos do passado, mesmo que seja uma passado recente, porque por Portugal a modalidade está carente de um verdadeiro, e novo, herói popular.
Luís Gonçalves

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