O Prémio Progressividade

O ciclismo sempre teve, e continua a ter, aquela notável imaginação na invenção de prémios. O que começou por ser “apenas” a invenção da camisola amarela, como símbolo de líder e portador do maior prémio (depois foram aparecendo outras cores simbolizando a liderança noutras provas), passando pelo prémio da montanha e regularidade, o ciclismo deu ao mundo alguns dos símbolos e prémios mais famosos e identificáveis por qualquer cidadão, mesmo pouco chegado à modalidade.

São estes os mais famosos e nobres prémios atribuídos na modalidade, apenas ao alcance de alguns dos maiores ciclistas do mundo.

Dos outros, muitos e inventivos, talvez o mais democrático e reconhecível, seja o das metas volantes. A democracia em vários sentidos, porque normalmente premeia ciclistas em fuga. Não menos conhecido que o prémio da montanha, ou do que o símbolo de liderança, tem também o dom de, com facilidade aproximar o ciclismo da realidade que o rodeia. Ou seja, qualquer autarca, mesmo da Junta de Freguesia mais pobre deste país se pode dar ao luxo de ter a sua meta volante, bem como qualquer comércio, empresa ou, não raras vezes, cidadãos anónimos.

Nalgumas corridas, curiosamente nas mais periféricas, as metas volantes ainda valem a pena. Mas, como a maioria dos prémios que são distribuídos por este país fora, em muitos outros casos têm apenas valores simbólicos e pouco motivantes.

No contexto, será de assinalar um prémio que existiu durante algum tempo, em princípios de noventa, do século passado. Na Volta a Portugal, o prémio progressividade, premiava etapa após etapa o ciclista que mais posições ganhava em cada etapa. Poderia, por exemplo, beneficiar ou motivar os ciclistas que entravam em fugas. Se a fuga ganhasse algum tempo seriam candidatos a subir muitos lugares naquele dia. Na Volta 1991, o prémio progressividade diário perfazia vinte e cinco contos, qualquer coisa como cento e vinte e cinco euros (mas há quase trinta anos…).

As contas das organizações estão cada vez mais apertadas e sujeitas a poucos actos de imaginação. Assim o ditam as normas e cadernos de encargos pesados, por diversos factores. Nos tempos que correm é difícil renovar o prémio progressividade, sobretudo com valores apetecíveis. Tem, no fundo, um irmão mais recente que é o prémio da combatividade, que pode gerar os mesmos instintos atacantes nos ciclistas. Não deixa de ser, no entanto, um prémio interessante, sobretudo num ciclismo cada vez mais metódico.
Luís Gonçalves