As meninas da bicicleta

Como em poucos desportos, ou nenhum outro, pelo menos de massas, podemos levar crianças de tenra idade ao ciclismo. É, tendencialmente, uma modalidade que adoram, por tudo o que envolve, sobretudo uma chegada, dá-lhes a liberdade que não têm num estádio ou num pavilhão e, é normalmente um local onde não existem confusões, nem claques, ou grupos de adeptos organizados, preparados e licenciados para fazer maldades.

Por isso mesmo, a estreia numa prova de ciclismo da minha filha mais velha pôde ser aos dois meses de idade, em Viseu, logo numa Volta a Portugal. Desde então, já lá vai algum tempo, sempre que pode, ou posso, faz parte da nossa vivência, com o seu “bate-palmas”, que nas zonas de meta passa despercebido, mas dentro do carro se pode tornar um pouco chato!

Estamos, por simples gosto à modalidade, em provas de estrada, xco ou pista. É nesta última vertente que centro a minha atenção, porque costuma ser a sua preferida. Não porque está sentada (ou pelo menos tenta), mas porque pode ver muitas “meninas” a andar de bicicleta.

De facto, sobretudo nas provas internacionais que felizmente se vão fazendo em Sangalhos, muitas das selecções estrangeiras brindam-nos com uma forte presença feminina. Vem isto a propósito da nossa Federação querer reforçar aposta, no próximo ano, no ciclismo feminino. A ideia, sobretudo num mercado em expansão, só pode ser boa. Mas não deixa de ser uma ideia repetida e que pouco tem passado disso, de uma boa ideia.

Ao longo dos anos tem sido comum algum apoio às mais jovens femininas mas que, a determinada altura estanca, sem que tenha existido até agora um plano formativo a longo prazo de uma selecção de Elites Femininas que possa representar condignamente o país. Valores, até temos tido alguns, mas muito pouco apoiados, ou apoiados apenas até determinada altura. Em qualidade e em número, já podíamos e deveríamos ter uma boa representação feminina no principal escalão.

Em bom rigor, também deveremos dizer que o sector feminino é bem mais volátil do que o sector masculino. Com muito menos remorsos tomam a decisão de deixar de correr. Pode ser pela falta de visibilidade, ou futuro, porque não raras vezes, mesmo com bom apoio das equipas onde estão, abandonam a modalidade ainda bastante jovens.

Mas num mundo ocidental em que a prática desportiva é cada vez mais igualitária entre géneros, sem ser fácil, bem pelo contrário, não podemos deixar de olhar para o sector feminino com redobrada atenção. Tem crescido o número de praticantes mas o ciclismo tem que se tornar ainda mais atractivo para as mulheres levando a uma permanente, e necessária, renovação de gerações.

Penso que começamos por uma capa inédita no plano de orçamento e actividades da Federação, onde pontua um pelotão feminino.

Apenas uma pequena cereja, de uma salada de frutas que terá de ser muito maior e que já devia ter sido seriamente programada há bem mais tempo.

Mas mais vale tarde que nunca, esperando que mais uma vez as coisas não fiquem só pelo papel. Muitas vezes são apenas precisos modelos, ora figuras de referência (que existem), ora um número confortável de praticantes.

Quando as meninas, vêem muitas meninas a andar de bicicleta têm mais vontade de saltar para dentro da pista.
Luís Gonçalves