O regresso dos emigrantes

As mais recentes ondas de emigração do ciclismo português fazem com que o retorno de alguns ciclistas ao “nosso” ciclismo tenha algo de galvanizador.

Em tempos, estas ondas de emigração eram diferentes. Por volta dos anos setenta do século passado, apesar de alguns ciclistas representarem equipas estrangeiras, que lhes davam a oportunidade de correr as maiores provas do mundo, normalmente, o vínculo com alguma equipa nacional mantinha-se, não se perdendo por completo aquela figura no ciclismo português, sobretudo na Volta a Portugal. No fundo, representavam duas equipas. Não será preciso ir mais longe no tempo, recuando ao momento em que Alves Barbosa, do Sangalhos, fez o seu primeiro Tour, em representação de uma selecção mista, inscrita pelo Luxemburgo.

Aquela representação de duas equipas dava cenas curiosas. O mesmo ciclista, em representação de uma equipa francesa, tinha equipamentos novos quase todos os dias do Tour, e dois ou três para a época inteira no FCPorto, como em qualquer outra equipa nacional.

Mas dos mais recentes emigrantes, que correram lá fora largos anos e pouco tempo cá passavam, a emigração deixou-nos algumas falhas de referências no nosso ciclismo. Há uns anos, apesar das suas presenças e vitórias na Volta a Portugal, não deixámos de ver com agrado o regresso de Orlando Rodrigues e, mais tarde, assistir com motivação ao retorno da longa aventura do José Azevedo. Duas das maiores referências do ciclismo português, com carreiras frutuosas, cada um à sua maneira, por outras paragens.

Talvez possamos incluir no lote o Cândido Barbosa, o Manuel Cardoso, um dos únicos portugueses que ganhou provas no Worldtour e, sem dúvida, bem mais recentemente, o Sérgio Paulinho, também este uma referência do nosso ciclismo, embora, teremos que dizer, porventura pela sua personalidade, discreta.

Com mais descrição teríamos outros, o Bruno Pires, que fez parte de grandes equipas e depois teríamos uma extensa lista de ténues aventuras fora de portas, uma lista que até já foi de consagrados do ciclismo nacional, como o Fernando Carvalho, o Vitor Gamito, mas, nos tempos que correm, uma lista cada vez mais extensamente jovem, o que não pode de nos deixar de dar uma dimensão preocupante. A pressa sempre foi inimiga da perfeição. Qualquer jovem Cadete (ou os pais…) acha que já é o Froome ou o Sagan, quanto mais o Valverde. E os patamares que o Froome, pacientemente, teve que passar até chegar a Froome…

Ora, num ano em que promete investir no ciclismo português, sem deixar de dar o mérito aos que sempre por cá andaram e construíram boas carreiras dentro de portas, regressam José Mendes e, sobretudo Tiago Machado.

Por este último, quer se goste ou não da sua impetuosidade quase ingénua, não podemos deixar de o considerar, talvez, a segunda maior figura do ciclismo português da actualidade, precedido, naturalmente, pelo Rui Costa. Dos ciclistas que estavam ou estão no estrangeiro e até pelo pelotão nacional o Tiago é uma figura conhecida, até pelos que são menos fãs da modalidade.

Terá tudo para ser uma mais-valia no seio da nova época, uma figura atractiva (comercialmente!) e expansiva. Por vezes até expansiva demais e veremos como lidará o pelotão português com isso. Praticamente o mesmo pelotão e, as mesmas organizações, que eram bem pouco acarinhados cada vez que o Tiago corria em Portugal, em representação do seu Worldtour.

Não deixará de ser um regresso saudado, associado à imagem de um grande clube e que certamente nos deixará algumas memórias da época 2019. E estamos carentes de boas memórias. Ou pelo menos, engraçadas.
Luís Gonçalves

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