O tempo passa… mas os problemas aumentam

Numa altura em que tudo parece parado, certo é que a época 2019 avança a bom ritmo. Contratações, inscrições, calendários, regulamentação, patrocínios, enfim, todo um trabalho pouco visível ao público em geral, mas que ocupa com grande intensidade toda a estrutura do ciclismo.

Ano após ano, em cada fim/início de nova época são também apontadas virtudes e defeitos da época transacta. Algumas das preocupações, ou apontamentos, como se costuma dizer, “já têm barbas”.

Neste fim de época de 2018, e início de 2019, muito se tem falado da escassez de verdadeiras equipas Sub-23. A cada época, cada qual com o seu enquadramento, com frequência aparecem as mesmas questões, muitas vezes sem pensarmos que a coisa pode sequer piorar.

Recuando à época 2009, e antevendo, então, a época 2010, uma publicação infelizmente já extinta, o anuário “Duas Rodas”, assinalava já o definhar do escalão Sub-23. No entanto, vejamos o enquadramento de então pelas palavras vertidas na publicação: –  “(…) Mesmo assim, e apesar dos patrocínios serem cada vez menores, dez formações conseguiram reunir os orçamentos necessários para disputarem mais uma temporada desportiva. São perto de uma centena os ciclistas que vão participar nas diferentes provas que compõem o calendário nacional, também elas cada vez em menor número. Pois… dez equipas, bem distribuídas pelo país, e falava-se de um calendário quase exclusivamente Sub-23!! Que se pode dizer agora, à entrada da época 2019?!

Sob outro ponto de vista, para além do reduzido número de equipas Elite (cinco) a transitarem de 2009 para 2010, num ano que foi complicado (extinguiram-se a Liberty e a Póvoa), outra coisa chama a atenção. Depois da Volta a Portugal, em 2009, onde teria ganho o Nuno Ribeiro, acabando por pender a vitória para David Blanco, para além dos tradicionais circuitos, tivemos o GP Crédito Agricola Costa Azul, com quatro dias, o GP de Gondomar, com dois dias e três etapas e o GP Liberty Seguros, com quatro dias e cinco etapas, já disputado perto do fim de Setembro. Provas com interesse e competitividade, a primeira das quais assinalada pela presença da Selecção Nacional (agora, à inglesa, seria a Equipa Portugal), com a vitória do Rui Costa, que estava já na Caisse D’Epargne.

Em dez anos, muito se passou, a economia muda, a vida muda, mas perdeu-se grande parte da sustentabilidade que nos permitiu bons resultados na década seguinte, nomeadamente ter um campeão do mundo. Em 2010, já se via preocupação mas mesmo assim anunciavam-se dez equipas Sub-23 e dezoito de Juniores, em pelotões onde já ouvia-mos falar do José Gonçalves, Joni Brandão, Domingos Gonçalves, Nelson Oliveira, Luís Afonso, António Carvalho, Frederico Figueiredo, Rafael Silva, Amaro Antunes, César Fonte, David Rodrigues, Rafael Reis, Luís Gomes, numa pequena amostra de nomes que atingiram o profissionalismo (o que nunca é fácil), alguns deles, ao mais alto nível, beneficiando de calendários competitivos mais equilibrados e pirâmides formativas correctamente construídas.

O tempo já não nos permite voltar a 2010. Mas se calhar ainda nos permite, por exemplo, voltar a ter um calendário exclusivamente Sub-23, para equipas verdadeiramente de Sub-23, com mais de vinte dias de corrida, capazes de suscitar mais interesse neste importante escalão formativo, aqueles dias que agora se considerariam um luxo, mas que em 2010 até já eram vistos como sendo poucos.

Desta maneira, ou de outras, é urgente resgatar a formação de ciclistas em Portugal. Pensa-se em demasia em conjecturas e formações, no plano teórico, por vezes até com gente que nem sabe bem o que é uma bicicleta, e tem-se apostado pouco no plano prático, sobretudo o plano prático e útil condizente com a realidade portuguesa. Os sinais práticos vêm de longe, e não se pense que é com uma andorinha ou duas de qualidade que se faz uma boa Primavera. Pode ser que seja um ano de viragem. E de viragens, convinha começar por organizar a pirâmide etária.
Luís Gonçalves