A voz do povo

A voz do povo. Naturalmente, embora alguns expressem com mais frequência as suas opiniões, sobretudo na forma escrita, somos todos povo. Terão apenas alguns mais sorte por terem acesso frequente a escreverem sobre o que pensam. Já lá dizia o outro (Churchill) “não há opinião pública, há opinião publicada.”

Não existindo maior verdade, também não deixa de ser normal, por vezes, a opinião publicada coincidir com a opinião pública. E também é bom que não exista só a propaganda oficial ou uma opinião publicada. Vem isto a propósito das equipas Sub-25 que, pessoalmente e com prudência, tenho classificado apenas como uma ideia a rever.

Mas o certo é que, sobretudo o que tenho ouvido nas minhas sondagens (que são muitas e com muita gente diferente!) sempre foi pouca solidariedade com este projecto. As razões indicadas são várias, algumas bem visíveis, outras mais imaginativas.

Por mim, sempre fui contra estas equipas, acima de tudo porque criam regimes de desigualdade, em todo o lado. Ora no âmbito do ciclismo profissional, onde competem com equipas cuja sustentabilidade é bem mais difícil (inscrições, seguros, contratos…), tornando uma tentação a formação de equipas Sub-25, e também por isso estão limitadas, mas sobretudo no escalão Sub-23, onde as diferenças competitivas são evidentes e profundamente injustas.

Mais do que isso acabaram por dizimar ainda mais o pelotão Sub-23. Imagine-se que, para além da razia nas equipas de clube, uma equipa Sub-23 de clube, porque acaba por não estar tão dependente de resultados, pode arriscar (é para isso que servem) em três ou quatro jovens, até aí discretos, mas sobre os quais acha merecerem uma oportunidade, muitas vezes vindos dos Juniores. Enquanto isso, as equipas Sub-25, tendencialmente, apenas procuram “consagrados” dos escalões jovens. E naqueles três ou quatro jovens, que podem evoluir num contexto realmente Sub-23 e que já não são aproveitados, não raras vezes se perdem bons ciclistas. Esta ideia não é só minha. Também pertence à tal voz do povo.

Apesar de algumas vezes se insinuar que por este espaço de notícias e opinião, se pensa muitas vezes de manhã, na crónica maldizente da tarde, certo é que o que se pretende é acima de tudo discutir problemas, ou questões, de forma espontânea e desinteressada, com uma troca de opiniões diferentes, e aceites como é normal quando se pretende evoluir, desde que sustentadas e bem-educadas.

Sem ser preciso recorrer aos últimos comentários, bem construídos, de alguns leitores, está à vista de todos que, sobretudo na nossa realidade, as equipas Sub-25, são uma ideia que interessa a poucos, e pouco querida por muitos.

Pode-se, e deve-se, dizer isto sem contudo tirar mérito a algumas destas equipas. Se tomar-mos o exemplo do LA, nomeadamente, apesar de ser Sub-25, funciona quase como uma equipa verdadeiramente continental, oferecendo aos ciclistas condições que muitas equipas continentais não oferecem. Isto, apesar de alguns deles acharem que não, mas isso, serão sinais dos tempos.

A existirem estas equipas, as regras terão de ser de facto muito mais apertadas, nomeadamente no que concerne à sua participação na Volta do Futuro ou, por exemplo, à possibilidade de contratarem ciclistas estrangeiros, quase, quando bem lhes apetece. Sem ter nada de xenófobo, se a equipa ainda é vista, pelo menos no papel, como formação, deve-se esforçar por formar ciclistas nacionais.

Aliás, esta é uma questão, a que a Federação também deveria dar alguma atenção, noutros escalões (Cadetes e Juniores). Não se pode pôr uma bandeira formativa numa equipa que, com insistência a mais, apenas para as provas mais importantes, em detrimento dos jovens portugueses que dão o corpo ao manifesto ao ano inteiro, “contrata” uma eminência estrangeira. É mais um tema que pertence à voz do povo.
Luís Gonçalves