Ganhar é sempre difícil

Recentemente perguntaram a Alejandro Valverde porque é que ainda não tinha ganho o Giro da  Lombardia, um dos cinco monumentos do ciclismo, que se adaptam às suas características como ciclista, e onde, por mais do que uma vez esteve perto da vitória.

A resposta do espanhol parece-me a mais pura possível: “ganhar é sempre difícil.” Obviamente que falando-se de Valverde nunca se poderia falar em falta de vontade, o homem que depois dos 35 anos já leva 25 vitórias, a mais recente, o desejado título mundial, onde, à chegada, ninguém que goste verdadeiramente de ciclismo poderia ficar indiferente à emoção sincera do espanhol que alcançava finalmente um título com um sério trabalho de vários anos, acumulado de ilusões e desilusões.

Já há uns anos, talvez em 2014, Alberto Contador tinha uma reacção parecida. Aqui, numa Volta ao Algarve, quando venceu a etapa do Malhão, alguns acharam estranha a alegria visível no momento da vitória. Contador teria também que dizer que ganhar, fosse onde fosse, dava sempre muito trabalho, e que, por isso, todas as vitórias mereciam festejo.

No contexto, deveremos dizer que quem achou mais estranho o júbilo de Contador acabou por ser alguma comunicação social nacional, que muitas vezes vê a Volta ao Algarve como um simples desfilar de estrelas, dando-lhe pouca importância desportiva. Curiosamente, ou não, valoriza-se mais a Volta ao Algarve no estrangeiro, do que cá pelo burgo. Se não fosse valorizada por ciclistas e equipas, não tínhamos a lista de vencedores que tem.

Contador, valorizava ainda as vitórias, porque são em bem menor número do que os dias em que não se ganha. Contabilizando tudo, as sete grandes voltas que tem Contador, vêm de dezoito participações, tal com as seis de Froome, vêm de dezassete grandes voltas, nem todas completas, por motivo de quedas, nomeadamente.

Enfim, até os atletas suspensos por violação das normas anti-dopagem às vezes fazem alguns desabafos úteis. Quando o italiano Ivan Basso esteve suspenso, dizia a determinada altura que o seu principal problema era que naquele momento toda a gente se esquecera dos treinos de mais de trezentos quilómetros que fizera com uma mochila às costas, durante a pré-época.

Sem discutir as penalizações, bem aplicadas, o certo é que, em qualquer momento e em qualquer corrida, ganhar não é fácil, exige muitos sacrifícios e, embora a alguns aconteça com mais frequência, para todos, são bem mais os dias maus do que os dias bons ou óptimos.

Seria bom que qualquer pretendente a futuro ciclista, sobretudo os que estão habituados a ganhar em demasia, ouvisse com atenção as recentes e sábias palavras de Valverde.
Luís Gonçalves

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