GRANFONDOS: Controlar ou não controlar ?

Aparecerem brigadas de controlo anti-doping nos Granfondos é um tema que divide opiniões. Mais do que isso, radicaliza opiniões, tantas vezes sem fundamento.

Os Granfondos são uma recente moda mundial. Transformaram-se numa espécie de desafio, ou “gostinho” à competição para quem nunca o sentiu a sério. Reside aqui um ponto importante. Por mais que lhes chamem corrida, não passam de eventos de carácter turístico, pouco mais que cicloturismo. Os regulamentos dos principais eventos nacionais são claros em relação a isso e é assim que são vendidos aos municípios interessados e era assim que todos os participantes os deviam encarar.

Há no entanto, controlo de tempos, prémios e uma oportunidade de fama para quem, tantas vezes, nunca a teve. E onde há a possibilidade de fama, mesmo que efémera e falsa, há problemas.
Em alguns Granfondos internacionais os regulamentos são menos minimalistas. Não deixando de ser passeios, prevêem, por exemplo, a possibilidade de controlo anti-doping a todo e qualquer participante, mesmo que não federado. Consequências. Apenas não participar em mais eventos daquele organizador e, em raros casos, assumir os custos do controlo que lhe foi efectuado. Custos pesados. É o modelo americano, onde tudo é exagerado e onde um tipo pode ser indemnizado por ser gordo à conta de comer, por vontade própria, muitos hamburgueres.

Em relação a uma questão que tem surgido com alguma persistência em Portugal, atletas suspensos por violação de normas de dopagem, portanto federados, neste modelo americano, permite-se a sua participação, desde que parta da última boxe e não terá controlo de tempos.

Pela nossa terra, os regulamentos dos Granfondos são bem menos complexos e completamente omissos em relação a estas matérias, naturalmente pelo que está em causa, um passeio turístico, por desnecessidade.

Ora se nos Granfondos os atletas federados, de qualquer modalidade, podem ser controlados como se de um controlo fora de competição se tratasse, sendo essa a única forma de legalizar a coisa, talvez já seja um exagero, pelo caminho que isto toma, um dia destes, controlar o tipo que chegou a 3 horas do primeiro, que foi para os copos na noite anterior, que usou um champô, como sempre, para fortalecer o cabelo, tomou antibióticos na semana anterior, como pode tomar qualquer cidadão normal, incluindo os agentes da Adop, e que durante o percurso parou várias vezes para provar um vinho verde, um bocado de presunto, um queijinho, uma banana e tirar umas fotografias com os camaradas de estrada, não sabe o que é o salbutamol, nem o que são pictogramas de uma treta qualquer, nem a concentração necessária do xixi para efectuar análises! Ah… e tomou uma Aspirina para lhe passar a dor de cabeça da noitada anterior. Um controlo positivo num indivíduo destes, perfeitamente possível, seria anedótico e sem qualquer tipo de sanção. Só não dava assim tanta vontade de rir porque os custos de cada controlo para os contribuintes são bem relevantes!
Obviamente que, pelo menos por enquanto, o alvo da Adop não é este. Por facilitismo, inaptidão ou por preguiça própria é outro e é mais fácil de lá chegar nos Granfondos, onde, apesar de inscritos federados de modalidades diferentes só controlam ciclistas. Aliás, nunca os vi noutros lados. Talvez “A Bola”, e o nosso amigo Fernando Emílio, sempre tão bem informado sobre a matéria, façam uma reportagem sobre isso.

Dirão uns que é pela verdade desportiva. Mentira. É um evento de cicloturismo e é assim que tem que ser entendido por todos. Do lado dos controladores, neste tipo de eventos turísticos, ou semelhantes, põe-se sempre a questão da saúde pública. E quando se trata de saúde pública não se olha a meios nem a custos. Pessoalmente, tendo em conta o que é um Granfondo, e já que se fala de saúde, preferia ver os orçamentos canalizados, por exemplo, para reduzir listas de espera de cirurgias nos hospitais, ou o tempo de atendimento dos utentes. Se calhar era mais útil à saúde pública… A saúde pública é um pouco como o interesse público no Direito. Não se sabe bem o que é mas justifica tudo.

Dito isto, em bom rigor, também se deve dizer que alguma malta se tem posto a jeito e provocado algumas antipatias que se percebem.
Mas o controlo destes tipos, ciclistas frustrados, deve ser feito nos locais próprios. Ou seja, se querem controlar os veteranos, vão às provas deles. Pelo que se vê é suficiente e já produz resultados, para mau grado da modalidade. É quase sempre só “meia efedrina” por engano, ou um “xarope” para a tosse que não se sabia que fazia respirar melhor!! Até escusam de fazer exames.

Em suma, ou o alvo é bem maior, tentar chegar a quem trafica as substâncias, que já é crime, ou os controlos nos Granfondos, pelos meus padrões, são uma estupidez. E uma estupidez custosa para os contribuintes. Enfim, também é só mais uma. Como, no fundo, uma espécie de competição não oficial, estar pejada de resultados que se revertem lesivamente na estatística de uma Federação oficial, naturalmente por vias legais, mas descaradamente tortuosas.
Luís Gonçalves

4 comentários a “GRANFONDOS: Controlar ou não controlar ?”

  1. Refere um ponto bastante importante no texto… a ADoP gosta de apresentar resultados, e é bem mais fácil encontrar positivos em provas como estas do que ir atrás do que realmente importa, mas isso dá muito trabalho e exige algum saber, coisa que não abunda por aqueles lados

  2. Se nos Grandfondos existe pódios, logo devem de estar sujeitos a controle.
    Quem não deve não teme.
    Qualquer prova com pódios seja que modalidade for, deviam de estar sujeitos a controle e no momento em que pagam a prova estavam a autorizar.
    Estes drogados não fazem falta.
    Lixo!

  3. Para quem é premiado nestes eventos sim, poderão/deverão ser controlados. Há quantias monetárias em jogo, não que sejam elevadas mas é uma competição por esses prémios.
    Mas quem vai para comer o presunto e passear, que acaba a 2h do 1º classificado não faz sentido qualquer tipo de controlo

  4. Deveria ser controlado, o exagerado consumo de doping por auto prescrição está por em risco a saúde de muitos praticantes.

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