O meu Alves Barbosa

O ciclismo português perdeu o seu ícone. Se existe figura que resume e personifica a história do ciclismo nacional será Alves Barbosa. Atravessou décadas de dedicação à modalidade, em várias variantes, com uma visibilidade e um reconhecimento social ao alcance de muito poucos.

Seria fácil retratar aqui o seu palmarés ou os contributos que deu no mundo do dirigismo, ou ainda a sua vertente jornalística ou cinematográfica. Mas, de momento, acho mais sincero um retrato meu, e pessoal, do mestre Alves Barbosa.

A primeira vez que o vi, foi à distância, com uns auscultadores enormes comentando a Volta a Portugal. No meu desconhecimento de então disseram-me que era o Alves Barbosa. Há altura, sem grandes laços com o ciclismo que não fossem já gostar da modalidade, ainda assim, era um dos nomes que me soava melhor. Tinha um tio-avô, minhoto profundo, que de vez em quando dava umas pedaladas e tinha a mania que era o Alves Barbosa, o Alves Barbosa dos relatos que ouvia no rádio. Talvez por isso.

Pessoalmente, conheci Alves Barbosa bem mais tarde, já bem ciente do que é esta figura no ciclismo nacional. Aproveitei para que me autografasse um livro que escreveu sobre a história da bicicleta, que guardo juntamente com todos os outros, o último dos quais, já do Rui Sousa. Nesse dia, com Alves Barbosa, num almoço partilhado com Joaquim Andrade (pai), também vencedor da Volta pelo Sangalhos, pouco abri a boca. Só tinha que ouvir!

Depois disso, cruzei-me com ele por muitas outras vezes. Pessoa de trato fácil, acessível, sabedor dos destinos da modalidade, com alguma vaidade, mas uma vaidade cheia de substância, bem desigual à de muitos vaidosos que andam por aí com pouca ou sem nenhuma substância.

A última vez que vi o grande Alves Barbosa, doeu-me a alma. Em Montemor, durante uma edição do Prémio que lhe faz homenagem, numa cadeira de rodas, sem revelar grandes emoções e com um olhar disperso e desinteressado. Das Voltas a Portugal, dos filmes, da televisão, do décimo lugar na Volta a França, a um estado de alheamento que não nos pode deixar de intimidar a todos, elementos por ora sãos e saudáveis.

Mas mais desiludido fico quando pergunto a gente que se diz do ciclismo quem é Alves Barbosa. Os jovens cadetes que ainda recentemente participaram no Prémio Alves Barbosa, esses, então, revelam respostas verdadeiramente desastrosas. O mais próximo que obtive da realidade foi dizerem-me: “parece que foi ciclista”. Como se fosse um ciclista qualquer, ou como se ignorar a história da modalidade fosse algo útil à vida de um ciclista a sério.

Alves Barbosa não foi um ciclista. Em boa medida, foi, ou é, a par de muito poucos, o ciclismo português.
Luís Gonçalves

1 comentário a “O meu Alves Barbosa”

  1. DISSE,E DISSE MUITO BEM,FOI UMA GRANDE FIGURA DO CICLISMO NACIONAL E INTERNACIONAL.OBBRIGADO LUIS GONÇALVES.
    AQUELE ABRAÇO

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