Ventos de mudança – a Colômbia é apontada como o melhor exemplo de um país periférico

Há muito que se vem falando do novo paradigma do ciclismo mundial. A tão falada globalização, teria inevitavelmente de ser aproveitada também pelo ciclismo. Sobretudo os últimos três presidentes da UCI, antes de Lappartient, tiveram uma visão, cada um a sua visão, do que pretendiam para a transformação do ciclismo como desporto global.

Naturalmente que essa globalização, deu sérias facadas no ciclismo europeu (continental, porque de algumas ilhas se faz outra história) e no seu tradicionalismo. Algumas provas com dezenas e dezenas de anos, definharam. Alguns países, viram as condições dos seus ciclistas e equipas decrescerem substancialmente. Dizia-se que o ciclismo estava pior, sem fundos. Puro engano. Os fundos, cada vez mais milhões, apenas se deslocalizaram.

Os europeus (continentais), sobretudo as mais tradicionais nações do ciclismo foram apanhadas, dirão uns, desprevenidas, dirão outros, se calhar mais certos, desleixadas e demasiadamente confiantes na sua importância histórica. Sem desconsiderar a Bélgica, a pancada maior é dada na França. E, apesar da recuperação actual, o que isso custa aos franceses!

Se olharmos para as grandes voltas, quase podemos dizer, pelo tradicionalismo, que o impensável aconteceu. Nos últimos dez anos, são doze as vitórias anglófonas. Se juntar-mos as duas de Quintana, são catorze os sucessos extra-europa continental. Têm-se salvado, essencialmente, a Itália e a Espanha, sobretudo por causa de Nibali e Contador.

Países que há trinta anos não faziam parte da linguagem habitual do ciclismo, são hoje as nações de ponta. O feito inglês, ultrapassou este ano qualquer das nações mais tradicionais. Ganhar todas as grandes voltas, cada uma, com ciclistas diferentes.

No contexto, convém que pela Europa mais conservadora, os países se adaptem às novas circunstâncias, sobretudo os mais periféricos, como Portugal. Actualmente, não somos propriamente um país de grande importância na globalização. Isso já vai há quinhentos anos. Será preciso pensar muito bem internamente a modalidade. Se calhar é preferível fazer um pouco como os colombianos, que olham bem para dentro, melhor ou pior, deixam funcionar o seu mercado livremente, sem regulamentos excessivos e castradores, ignorando até algumas políticas internacionais, o que lhes tem fornecido um viveiro de talentos crescente, sobejamente aproveitado pela Espanha, mas também já pelos ingleses e até pelos cazaques.

O exemplo colombiano é antigo. Há bastante tempo que é referido como o melhor modelo de país periférico do ciclismo. Por isso mesmo, porque já começaram há anos, têm agora inúmeros frutos. É certo que as normas sul americanas são menos apertadas. Os costumes também são diferentes, não há grandes equipas, nem grandes corridas, mas os ciclistas colombianos e a selecção colombiana são cada vez mais fortes, em qualquer área. A própria Colômbia é já um país influente nos meandros do ciclismo.

No fundo, os colombianos, deixam funcionar o seu mercado, segundo as suas necessidades, funcionando como país exportador a grande escala e não apenas com meia dúzia de ciclistas. Quer nos agrade ou não, porque se souberam adaptar à nossa realidade, tem sido esse o segredo do nosso futebol, por exemplo, com os sucessos visíveis das selecções, jogadores e da influência dos nossos dirigentes e agentes.

Embora Portugal pareça muito próximo da Europa, por vezes, parece mais perto da América do Sul, com um bocadinho mais de estrutura. Obviamente que só podemos considerar positivo o modelo inglês, ou outros, para aquelas bandas e que gostaríamos de ter por cá. Mas funcionam num contexto completamente diferente do nosso, quer social, geográfico (muito importante, e que faz com que os países do centro da Europa, possam ter ideias diferentes, nomeadamente porque a circulação de equipas de uns países para os outros é bem mais simples e acessível) e sobretudo, monetário.
Luís Gonçalves