O desporto em Portugal, é visto com duas medidas: uma para o ciclismo e uma medida para as outras todas

PROTESTAR OS HORÁRIOS?

A Volta a Portugal, mais do que qualquer outra prova disputada em solo nacional, é dada a visitas normalmente estranhas ou afastadas das lides velocipédicas.

Enfim, para além do Presidente da Republica, que parece estar em todo o lado, são os convidados da organização, são os convidados dos patrocinadores, autarcas, curiosos, gente que “briga” por uma pulseira para entrar no clube da volta e não a tira durante uns dias e os convidados das equipas, muitas vezes patrocinadores, ou presidentes de clubes, para além do futebol, também ligados ao ciclismo.

Acabam por ser estes últimos os que estão mais perto do ciclismo e dos ciclistas. Para além de marcarem presença no tal clube da volta, também acompanham etapas nos carros das equipas e, acabam por viver um dia ou dois com os ciclistas e os seus horários.

É curiosamente este um dos temas mais vezes focado por tais visitantes. Mais habituados aos metódicos horários (e mais fáceis de fazer) do futebol, num mundo que desconhecem choca-os o pouco descanso que os ciclistas têm, as horas de levantar, sobretudo as horas de jantar, o pouco que se come durante o dia e a única refeição verdadeiramente a ser tratada por esse nome a horas em que já se devia estar recolhido nos quartos.

No regime actual não há muito que se possa fazer. O facto é que o ciclismo está cada vez mais refém dos horários televisivos. Uma questão transversal a todos os países, mas que não pode deixar de levantar sérias questões. No contexto de provas por etapas com vários dias, certo é que estes horários de inicio e término das etapas são cada vez mais prejudiciais à recuperação dos ciclistas.

E se o término e o início das etapas, como cada vez mais também existem, tiverem grandes neutralizações, naturalmente, o cenário piora. Nesses dias, para os ciclistas, acaba por ser comum jantar bem depois das 22 horas.

E se, como também dentro da anormalidade é cada vez mais normal, os controlos anti-doping forem sucessivos (ou seja, o mesmo ciclista pode ser controlado quatro ou cinco vezes no espaço de dois dias!) os horários pioram ainda mais.

Perguntava por estes dias, um homem ligado ao futebol, porque é que os directores das equipas não se uniam e protestavam. Todos os outros que estavam na mesa, habituados às várias agruras do ciclismo, tentando acabar o jantar por volta das 23 horas, só tiveram tempo de esboçar um leve sorriso. Infelizmente, o desporto em Portugal, é visto com duas medidas. Uma medida para uma modalidade e uma medida para as outras todas. É só na Volta a Portugal que duramente alguns se apercebem disso. Mas também é durante a Volta que mais facilmente conseguimos sensibilizar os adeptos para a questão.
Luís Gonçalves