Dias quentes

Preocupações com saúde dos atletas, no dia em que se chegou às Penhas da Saúde, provocadas pelo intenso calor que se tem feito sentir e que aumentam a dificuldade das longas etapas percorridas no Alentejo, parecem estar na base de um dia com menos quilómetros do que os previstos e a não passagem pela dureza tradicional da Torre.

Mais do que a saúde dos ciclistas, sempre importante, provavelmente também se pensou na saúde dos números do pelotão. Mais do que o calor, intenso, é certo, mas que em vários anos marca presença na Volta, com temperaturas muitas vezes idênticas, é a fragilidade deste pelotão que marca muitas diferenças em relação a outros que por cá já tivemos.

A decisão da organização pode ser vista com várias variantes. Terá agradado mais a uns e desagradado mais a outros. As decisões são assim. De qualquer forma perdeu-se algum interesse desportivo, que a Torre sempre dá e, talvez, até algum interesse comercial. Ainda assim, preservaram-se diferenças de tempo maiores!

Apesar do sucesso de Alarcón, Joni Brandão, depois de declarações quentes e profundamente infelizes, que lançaram suspeitas sobre a integridade moral de alguns, nomeadamente, e por inerência, de elementos da organização, acabou por deixar hoje na estrada a mensagem certa. Falar pouco e pedalar muito.

Pela saúde, sem dó nem piedade do calor, uma intervenção da Adop controlou vários ciclistas de todas as equipas portuguesas. Todas, menos as Sub-25, ao que parece. Até aqui são vistas de forma diferente.

Em dias desgastantes, onde o tempo de recuperação é muitíssimo curto, em vésperas de uma das etapas mais duras desta Volta, um verdadeiro clássico do ciclismo, sem questionar as acções de controlo, seria interessante ponderar se em vésperas de clássico Porto-Benfica, no futebol, se faria um controlo anti-doping desta forma e envergadura, à urina, ao sangue, com recolha de amostras para o passaporte biológico, muitas vezes em locais desapropriados.

Não esperando pela resposta, direi já, obviamente, que não. É a democracia… mas uma democracia que nos mente sucessivamente nas estatísticas.

Aliviando o tema, pode-se dizer que se os ciclistas são quem mais sofre com o calor, confesso que também sinto alguma solidariedade pela “malta” que faz parte das zonas de animação nas partidas e chegadas. Não é fácil angariar “clientes” e distribuir brindes com este Sol!
Luís Gonçalves