Da Polónia para Portugal

Praticamente à mesma altura que se corre a 80ª Volta a Portugal, também se disputa a 75ª Volta à Polónia. A diferença de cinco anos marca-se por poucas mais interrupções na Volta à Polónia, porque em anos de primeira competição a diferença é mais curta, sendo a nossa de 1927 e a polaca de 1928.

No entanto, a volta polaca ganhou notoriedade nos últimos anos tendo presença assídua das melhores equipas do mundo da actualidade e alguns dos melhores ciclistas. Isto, numa competição colocada no calendário UCI na mesma altura da Volta a Portugal. As equipas presentes, não serão pois uma questão de calendário, mas mais de outras valências, começando logo pela centralidade que a Polónia tem e nós não temos.

Com lucidez, o actual director da Volta a Portugal, sabe isso. As alterações provocadas pelo então Protour, travaram um pouco, ou bastante, a nossa ambição internacional, tão bem elevada durante os anos 90. Os nossos orçamentos não são os da Polónia.

Acabamos por ter uma Volta virada para dentro. Os condicionamentos orçamentais e da UCI são cada vez mais evidentes, mas olhar obcecadamente para a nova internacionalização da Volta talvez seja um pouco redutor. Ao pensar nisso teríamos obrigatoriamente que pensar em mudança de calendário e inevitável redução de dias. A Volta a Portugal perderia toda a sua identidade. Ficaria pouco mais que reduzida ao publico conhecedor e a uma parte cada vez menor do território, com as inevitáveis consequências da falha de retorno dos patrocinadores das equipas nacionais, invariavelmente virados essencialmente para o mercado nacional.

O grosso do público da Volta a Portugal não sabe quem é o Kwiatowski ou o Sergio Henao, ainda pensa que o Rui Sousa corre, torce nos sprints pelo Cândido Barbosa, e reconhece mais facilmente o Joaquim Gomes ou o Marco Chagas do que o Ricardo Mestre. Desconhece o que é o Worldtour, ou as equipas Sub-25. Vai à Volta porque aprecia o esforço dos ciclistas, porque gosta da festa do ciclismo e tem a secreta esperança de aparecer na televisão.

Mas a Volta é isto e vive destas massas. Um pouco como o Tour, mas a outra escala. Podemos gostar mais ou menos desta massificação, mas não deixamos de estar presentes e aderir à festa do ciclismo português.

Poderão dizer alguns que é pensar pequeno. Mas às vezes é preciso ter os pés bem assentes na terra e pensar no que faltaria ao ciclismo português sem esta Volta a Portugal. Para mudar o formato seria precisa outra sustentabilidade, que não temos. Eu também queria um Lamborghini!

Apesar das críticas resta-nos uma Volta onde muitas vezes, com algum olho e atenção, podemos ver uma parte do futuro do ciclismo mundial.

E de polacos também se faz a nossa Volta. Pela Mapei, Zenon Jaskula venceu em 1997. Curiosamente, numa etapa que ligou Abrantes a Portalegre, onde julgo que venceu o italiano Wladimir Belli, debaixo do famoso plátano no centro de Portalegre, estavam 43 graus…
Luís Gonçalves

1 comentário a “Da Polónia para Portugal”

  1. Temos um festival da canção, que atrai todo o mundo, a Web Summit, que é o centro mundial da tecnologia. Lisboa e Porto estão na moda e considerados dos melhores destinos turísticos internacionalmente. E não podemos ter uma volta a Portugal, que atraía as melhores equipas. Por esse motivo penso que é um pensamento pequeno, que não nos leva a lado nenhum

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