A “nossa” Volta

A Volta a Portugal já não tem a dimensão que em tempos teve. Mais dias, mais etapas, melhores equipas, uma verdadeira caravana publicitária que atraía gente à berma da estrada, acima de tudo, uma aura diferente, num país em que tudo também estava mais distante do que agora e que só o ciclismo, especialmente a Volta, conseguia unir.

Mas não deixará nunca de ser a nossa Volta. Nossa, não no sentido com que os franceses parecem ver a sua e que se reflecte no péssimo comportamento que mostram ao mundo, mas nossa no sentido de ser uma festa popular onde as pessoas se sentem bem, mas também, por ser cada vez mais só nossa.

Se Froome deu uma lição de desportivismo aos franceses, reconhecendo, pelo menos por enquanto, a passagem de testemunho para Thomas, na Volta a Portugal, sem estas grandes figuras, restam-nos, como sempre nos últimos anos, alguns jovens a seguir atentamente, nomeadamente, nalgumas equipas estrangeiras que nos visitam. Sem terem ainda a consistência que um dia podem vir a ter, a nossa Volta revela-nos sempre esse factor de interesse que, não é de somenos importância.

Mas nos últimos tempos, são de facto as equipas nacionais que fazem a Volta. Os próprios patrocinadores resumem tudo, em demasia, a esta competição. Na longa história da Volta, por esta altura, talvez nos falte um verdadeiro herói popular, lugar sempre reservado a um português. Com um acentuado domínio espanhol e a saída de Rui Sousa, o último grande herói popular do ciclismo português, ficámos um pouco órfãos. São lugares difíceis de substituir. São precisos sucessos, mas sobretudo carisma. Sem isso não há empatia com o público. É bom que os ciclistas nunca se esqueçam desta função publicitária que também têm. Cada vez mais.

Na Volta geograficamente mais inclusiva em tempos recentes, essa vertente de imagem também se vê em alguns pormenores organizativos. A importância social, associada a determinados eventos, merecem até a saudada visita do Presidente da República.
Mais uma vez o Jornal de Noticias lança uma colecção de cromos, desta feita, com algumas estórias, umas mais conhecidas outras menos conhecidas, para alguns todas conhecidas, para outros todas estranhas. Certo é que ficarão facilmente acessíveis a todos os que tenham interesse na modalidade.

Mas aqui, um pequeno reparo. Na página 42 da caderneta que é uma roda, fala-se num processo em tribunal “inconclusivo”. Não há processos judiciais inconclusivos. Há condenações e absolvições. A questão foi alvo de absolvição. Os fundamentos são outra história bem mais complexa e não tão redutora para estar numa mensagem subliminar.

Mas não é disso que se trata a nossa Volta. É sempre uma festa. Esqueçam os clubismos, apoiem os ciclistas e portem-se bem!
Luís Gonçalves