Tour: tédio ou espetáculo ?

Decorrido o primeiro terço do Tour, mais do que ver ciclismo, estes dias foram de certa forma passados a discutir a forma como o Tour é construído, a sua ligação com a televisão, o espectáculo e algumas etapas aborrecidas.

Poderemos talvez dizer que os adeptos da modalidade se dividem em relação a várias questões que nos foram evidenciadas nestas primeiras etapas. Mas, embora a organização tenha tentado colocar algum tempero na corrida, todos concordaremos que alguns dias foram bastante aborrecidos.

As comparações com as outras grandes voltas são inevitáveis. Tendencialmente, temos mais animação em dois dias do Giro ou da Vuelta do que em oito dias no Tour. Mas não é por causa disso que deixaremos de ver o Tour. Comparadas as audiências e o volume de notícias facilmente chegaremos a essa conclusão.

No fundo, o grande grosso do público do Tour, massificado e diversificado, procura bem mais do que simplesmente o ciclismo. Se formos ao Giro ou ao Tour de Flandres, sobretudo este, e perguntarmos pelas equipas e pelos ciclistas, a probabilidade de encontramos alguém que as/os identifique de cor e que conheça a história da modalidade é sobejamente maior do que no Tour. Tal como em Portugal, proporcionalmente, é bem mais fácil encontrar alguém que perceba de ciclismo na Volta ao Algarve ou no Alentejo, do que na Volta a Portugal!

Se o Tour terá sempre o seu público que, uma boa parte dele, achará sempre chatas (por incompreensão) as etapas planas, tenham cem ou trezentos quilómetros, as outras competições as mais das vezes têm de fazer pela vida. A fórmula tem sido a de montanha, ou subidas, quase todos os dias, sobretudo na Vuelta, o que, note-se, tantas vezes nos traz formas de correr, resultados e vencedores tão ou mais previsíveis do que os das etapas planas do Tour. Muita parra, pouca uva.

Mais do que as outras grandes Voltas, o Tour também é uma prova de pressão, tensão e contenção, onde, verdadeiramente, há bem mais a perder ou a ganhar e isso marca decisivamente o desenrolar dos dias e a forma de correr.

Verificamos também que a própria geografia da França, desde sempre marcou os moldes da prova. Numa competição em que os franceses, salvo raras excepções, sempre pretenderam um traçado abrangente, numa verdadeira volta a França, há zonas do país onde é quase impossível fugir a traçados de carácter plano durante vários dias. Ou isso, ou, pelo espectáculo, só tínhamos corrida nos Alpes, nos Pirinéus, talvez com um saltinho pelo centro e as voltas de consagração em Paris.

Vive-se também um tempo em que o ciclismo é cada vez mais financiado por regiões, ou associações representativas dessas regiões que, naturalmente, esperam o seu retorno. Se essa região for tendencialmente plana e tiver muitas praias para mostrar, ou um ou outro monumento que se pretenda “vender” aos turistas, não há muito a fazer.

Claro que tudo isto não invalida que os adeptos mereçam o seu espectáculo. Obviamente que os melhores sprinters do mundo (que só lá estão porque têm tantas oportunidades e visibilidade) garantem-nos esse direito, mas, só no fim das etapas. Com as transmissões integrais das etapas, entre as tentativas de fuga iniciais e o momento do sprint, de ciclismo, não tem existido muito para mostrar.

Historicamente, deixamos sempre às equipas consideradas menores a animação da fuga do dia, mas também não tem sido muito animador pedalar sozinho na frente de um pelotão tão organizado (cada vez mais) sabendo que mais tarde ou mais cedo nos vai engolir, depois de um desgaste que se paga bem caro numa prova tão longa. Até já o prémio da combatividade parece animar pouco os ciclistas. Para a maioria já é preferível acabar o Tour que, diga-se, não deve ficar nada mal no currículo, mas ajuda pouco à imagem imediata e mediática da modalidade.

Talvez mais do que discutir o percurso seja essencial criar alguns estímulos adicionais nos ciclistas e nas equipas, sobretudo nestas e em quem manda. Sem ser preciso recorrer aos pavets e ao festival da queda, uma etapa plana pode-nos proporcionar um espectáculo táctico e televisivo bem mais interessante do que uma etapa de montanha.

Não sendo fácil, a fórmula terá de ser encontrada por quem manda no Tour. Com o estímulo certo ciclistas e equipas também compreenderão, concorde-se ou não, que isto do desporto moderno também é cada vez mais um circo. E se os palhaços não nos fizerem rir ou se os trapezistas não fizerem uns “mortais”, com facilidade, adormecemos.

Embora a discussão tenha sido mais evidenciada este ano, não deixa de ser uma questão antiga. Não sei o que fará o “Tour”. Espero que também não se renda por completo e fique uma prova igual às outras. O certo é que, há mais de cem anos, as organizações do Tour, já nos habituaram a tirar alguns coelhos da cartola. Talvez seja o momento de tirar mais um.
Luís Gonçalves