Nove horas e vinte e oito minutos e cinco segundos de consagração

 

Como todos sabemos, estamos à porta do 105º Tour de France. Ao cabo de 21 etapas e de algumas cenas acrescentadas ao álbum da maior prova velocipédica do mundo, no dia 29 de Julho, todos esperamos a etapa de consagração do vencedor. Foi algo a que nos habituamos nos últimos anos e que, no fundo, ao fim de três semanas de sacrifícios, até vemos com algum agrado.

Mas nem sempre foi assim. Ainda recentemente, em 1989, por exemplo, a vitória foi discutida num famoso contrarrelógio final, em Paris, com Greg Lemond a bater Laurent Fignon, na “negra”. Não houve nesse dia tempo para consagrações na estrada. A etapa da consagração é uma invenção relativamente moderna.

Não sendo uma escolha ao acaso, olhemos para o Tour de 1956. Foi este o ano da estreia dos portugueses no Tour com o nosso Alves Barbosa, em representação de uma selecção mista do Luxemburgo onde, com dez ciclistas, para além dos luxemburgueses e do português, que foi décimo classificado, encontrávamos também um italiano e um inglês.

Viviam-se tempos em que quem tinha acesso ao Tour não eram as actuais equipas comerciais, mas selecções, ou nacionais, ou regionais. Aliás, o vencedor, o francês Roger Walkowiak, não estava integrado na selecção nacional francesa, mas na regional do Nord-Est Centre.

Mas voltando à consagração. Esta edição do Tour, teve 4.498 km divididos por 22 etapas. A antepenúltima etapa foi um contrarrelógio de 73 Km. A penúltima etapa ligando Lyon a Montluçon teve 237 km.

Para a última etapa (a que agora seria de consagração!) estavam reservados 331 km a ligar Montluçon a Paris. Foram nove horas, vinte e oito minutos e cinco segundos de consagração… De qualquer forma, ainda longe dos 471 km entre Nantes e Paris, completados por Maurice Garin em dezoito horas e nove minutos, na última etapa do primeiro Tour, em 1903.
Luís Gonçalves