” Uns são vistos como um produto da Equipa Portugal, outros, como meras obras do acaso”

São apenas dois os ciclistas portugueses que conseguiram juntar o título de contrarrelógio ao de campeão de fundo no mesmo ano. Os dados referem-se a este modelo de atribuição de títulos, em separado, que se iniciou em 1996, com a vitória de José Azevedo.

Isto porque, em tempos mais recuados da história dos nacionais de ciclismo é comum encontrar-mos acumulação de títulos, como os cinco seguidos de Joaquim Agostinho ou os vários de Marco Chagas, porque o campeão nacional era apurado no somatório das duas especialidades, contrarrelógio e fundo.

Mas desde 1996, a dobradinha esteve apenas ao alcance de Nelson Oliveira (2014) e, agora, em 2018, de Domingos Gonçalves.

Mesmo a acumulação de títulos, ainda que em anos diferentes, também não é muito comum. Está apenas nas mãos de Joaquim Andrade, Cândido Barbosa e Rui Costa. Se a acumulação, como vemos, já não é fácil, ser campeão nas duas no mesmo ano, será ainda mais difícil.

Naturalmente que os nacionais, sobretudo a prova de fundo, têm sempre a sua pontinha de sorte. Mas também não deixa de ser verdade que é preciso ir à procura dela e, de preferência, em bom momento de forma.

Domingos Gonçalves, como o irmão, José Gonçalves, numa união de perfil quase imperceptível, não são o exemplo do ciclista “perfeito”. Um pedalar impetuoso, um pouco “escangalhado”, por vezes, aparentemente, sem grandes características técnicas e até com alguma impetuosidade táctica a mais à mistura. Sobretudo no contrarrelógio são características notadas com evidência. Não deixam contudo de ser vigorosos e eficazes, se calhar, o mais importante. Alberto Contador também não era um exemplo de beleza a pedalar, muito menos Froome.

São, de momento, dois dos melhores ciclistas que temos, um concentrado em terreno nacional, outro, o José Gonçalves, como sabemos, ao mais alto nível internacional.

Sem filtro e em apreciação puramente pessoal, se olharmos para o percurso em comunhão de esforços de cada um só os podemos classificar, quase, numa expressão tão americana, de self made man.

Não têm, por exemplo, uma benção especial da Federação, como têm os irmãos Oliveira. Não quero com isto dizer que o Rui e o Ivo não têm qualidade. Têm sim senhor e de forma clara, embora ache, tendo em conta o seu momento de carreira (ignorando a idade e algumas normas!), que deviam já competir em escalão superior, como o deveriam já ter feito outros em passado recente. Aqui, acaba por ser injusto para os Sub-23 “normais”, competir directamente pelos títulos nacionais com alguém que tem acesso a provas do escalão Worldtour. Aliás, o tema, embora com outros contornos, pode-se estender à Volta a Portugal do Futuro.

Mas, voltando às bençãos, com demasiada evidência, uns são vistos (ou usados) como um produto da Equipa Portugal (um modelo repetido), beneficiando, nomeadamente, de publicidade constante e os outros, às vezes, quase tratados como meras obras do acaso, como se qualquer sucesso surgisse por esta via.

Se prestarmos atenção subliminar a alguns títulos, uns têm vitórias à campeão e os outros são, apenas, a vitória da força. Como se qualquer campeão não tivesse que ter força e qualquer individuo com força fosse um campeão.
Luís Gonçalves

1 comentário a “” Uns são vistos como um produto da Equipa Portugal, outros, como meras obras do acaso””

  1. Parabéns Grande Post!!!A ver vamos quem este ano vai ao mundial de CR!!!

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