O “PLANO A” DA MOVISTAR…

Desde sempre, o ciclismo, tem-nos demonstrado que uma “luta de galos” dentro de uma só equipa é normalmente prejudicial. se olhar-mos para uma prova tão mecânica como a Volta a França que, não fosse a sua inegável grandiosidade, por vezes, chegava a ser aborrecida, essas lutas são substancialmente mais notadas e normalmente mais prejudiciais.

Os dados do palmarés, sobretudo dos últimos anos, são evidentes. Embora se considere sempre um risco, retirando um ou outro vencedor mais inesperado, a balança tem pendido claramente para quem aposta num líder assumido.

Em anos mais recentes, até podemos dizer que no ano do regresso de Armstrong, a luta de galos acabou por não correr mal à Astana. Mas Contador, já sabia o que era ser vencedor da Volta a França e, apesar de tudo, contou claramente com a condescendência do americano que, apesar de se reconhecer pouco isso, em etapas fundamentais praticamente entregou a vitória ao companheiro de equipa. No fundo, abdicou um pouco de ser o Galo.

Vem isto a propósito dos candidatos a Galo, da Movistar. Há quem diga que é benéfico ter um plano A, um B e um C. Isto sem que publicamente se assuma quem ocupa o plano A, o B e o C. Podemos referir que qualquer grande equipa terá os seus planos B, provavelmente não para a vitória final, mas para reduzir os efeitos da falha do primeiro plano. E em qualquer dessas equipas, esses planos, ocupados por ciclistas e objectivos, já estão definidos e na maioria dos casos anunciados ao público.

Eusébio Unzué, parece partilhar a ideia de Quintana: “a estrada que decida”… Portanto, no plano teórico, e apenas isso, primeiro uma luta com o chamado, em cenários de guerra, “friendly fire” que, como sabemos, é fogo amigo, mas acaba sempre com mortes, e depois de fragilizados, vamos disparar sobre o inimigo!

Os galos vão lutar, é certo, sobretudo os mais jovens. Já ninguém vê Landa a trabalhar de ânimo leve e boa vontade para outro ciclista igual a ele. Para isso teria continuado onde estava. Mas também ninguém vê Quintana, que nunca foi equipier de ninguém em grandes voltas, nem tem estilo ou saber para isso, a ser o moço de recados de Landa. Resta Valverde para colocar ordem no galinheiro e, quem sabe, continuar a pôr os “galarotes” em sentido!

No meio dos combates, duvido que a raposa Eusébio Unzué não tenha já os seus planos bem definidos. Será mais uma questão de confusão do inimigo. Se as lutas de galos fossem legais, ele já tinha feito a sua aposta e investido uma boa soma monetária no seu plano A. Há uns anos, em clima idêntico, no Tour, ficaram todos à espera de Valverde (incluindo o Rui Costa) menos Quintana, sem ninguém perceber muito bem porquê naquela altura. Mas Unzué sabia, e Quintana foi segundo. Não quero com isto dizer que Quintana é o plano A. Até acho, apesar de sempre se anunciar o contrário, vezes a mais pelo próprio Quintana, que o colombiano nunca foi o plano A de Unzué no Tour. De outra forma, quando Valverde fez finalmente pódio, teria sido o colombiano o vencedor final. E, também de outra forma, a Movistar não se tinha reforçado com Mikel Landa.

Luís Gonçalves