AS LEND(E)AS DO CICLISMO

Dizia o notável e reconhecido por todos Albert Einestein que as teorias se sobrepunham umas às outras, não porque as mais recentes fossem consideravelmente melhores, mas porque, com a naturalidade da vida, as mais antigas deixavam de ter quem as defendesse. É certo que há excepções, mas também não deixa de ser a excepção que confirma a regra. E nessa regra, também é normal que algumas, ou quase todas as teorias recentes tenham inspiração e fonte nas antigas. Qualquer físico razoável percebe bem isso.

Vem isto a propósito das lendas do ciclismo. Há por aí algumas dessas lendas que parecem já bem preocupadas com a possibilidade de serem ultrapassadas por novas lendas, ou melhor, por outras lendas, porque isto da lenda é uma coisa de muito poucos.

A simplicidade do pensamento de Einstein seria útil a essa gente. Não é por subirmos agora o estatuto de Froome ou Contador, que vamos esquecer, Bernard Hinault ou Miguel Indurain. De outra forma Hinault já tinha feito esquecer Fausto Coppi ou Anquetil e estes já tinham “eliminado” do mapa Maurice Garin!

As verdadeiras lendas da modalidade são muito poucas, construída cada uma a seu tempo, cada uma num ciclismo diferente. Hinault não tinha passaporte biológico, nem sistema Adams, nem sequer análises até às pictogramas. Podíamos ser muito maus e atirar-lhe isso à cara. Mas não. Reconhecemos os seus feitos.

Também podíamos dizer que as miraculosas recuperações de Greg Lemond coincidiram com a “invenção” do EPO na forma sintética, nos Estados Unidos! Já vamos em gel contra atrito (Lotto-Soudal, no Dauphiné), mas os extensores de Lemond no Tour, ainda dão que falar.

Fausto Coppi, não era propriamente um exemplo de virtudes. Marco Pantani também não. Muito menos, Armstrong. Mas o carisma, ao alcance de muito poucos, e a importante forma como a cada tempo os factos se desenrolam, faz ultrapassar (quase) tudo o que possa existir de mau. É assim no ciclismo, como em qualquer faceta da vida, embora o desporto seja muito mais fértil nestes acontecimentos. Se tomarmos o exemplo do Maradona…

Bernard Hinault, tem o seu lugar irretirável na história da modalidade, como sempre terá Merckx, ou Maurice Garin, que até foi o principal protagonista do primeiro grande escândalo no ciclismo, já lá vão mais de cem anos.

Até nós, se olharmos para dentro com olhos mais redutores, nunca admiraria-mos Agostinho, Chagas ou o Rui Costa. Mas não é por causa de algumas imprudências que deixarão de ser lendas do nosso ciclismo. Os feitos vão muito para além das imprudências.

Naturalmente que, em liberdade e consciência, cada um pode avaliar as questões à sua a maneira e, até, escolher os seus próprios ídolos. Mas as grandes lendas são tão poucas, que existirá sempre espaço para todas. Conseguimos, de repente, contá-los pelos dedos das mãos!

Parece-me que a tal forma de ver as coisas de Einstein, com simplicidade e humildade, é o que constrói as grandes lendas em qualquer área. Einstein não tinha medo de ser igualado, ou ultrapassado, por outros físicos, com acesso a meios mais modernos e com teorias mais actuais. Sabia perfeitamente que isso era normal. Tem e terá sempre, provavelmente, sobretudo por isso e por nunca ter sido lacaio de ninguém, o seu lugar no Panteão dos físicos.

Já a postura de Hinault, a de um Fariseu (eu sou puro, os pecados são todos dos outros) começa a sair do perfil do que é uma lenda e a entrar na do tipo normal com bons resultados. As lêndeas é que vivem do sangue dos outros. Bernard Hinault, não precisa disso.
Luís Gonçalves

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