O TRÂNSITO E O CICLISMO

O último Grande Prémio JN, trouxe-nos à evidência um problema crescente no ciclismo. A questão não é recente, não surgiu neste JN, nem é um exclusivo português, mas o certo é que, sobretudo nalgumas zonas do país os condicionamentos de trânsito que uma prova de ciclismo provoca são cada vez mais volumosos.

No contexto, dos escalões de formação onde, note-se, normalmente e com frequência existem mais diferenças de tempo entre grupos e, tendencialmente, menos policiamento, aos escalões principais, seria bom que, seriamente, as organizações começassem a prestar séria atenção ao assunto.

Sabe-se que existe essa sensibilidade para o assunto, sobretudo da parte de algumas, como também se sabe que muitas vezes o delinear dos percursos e das chegadas está sujeito à vontade dos autarcas. Não devem porém os agentes do ciclismo sujeitar-se a tudo, tendo capacidade de sensibilização suficiente para ver de forma mais abrangente.

É que os problemas de trânsito, para além de criarem ainda mais inimigos externos à modalidade, são também lesivos dos interesses internos. Não são raros os exemplos de gente que se quer deslocar para as zonas de meta de forma a ver os ciclistas e não consegue, tais são os condicionamentos de trânsito ou os congestionamentos. Também, por exemplo, num contrarrelógio, note-se, que para além da estrada fechada que usam os ciclistas, são inevitavelmente necessários outros acessos para fazer circular os carros das equipas e os membros do staff que acompanham os ciclistas ou até os comissários, também todos estes, sempre em contrarrelógio.

As animosidades criadas (e no último CRI de Barcelos, quem fez estas deslocações tentando furar o mais rapidamente possível entre o parado trânsito, ouviu de tudo…) são por isso evitáveis. Estava à vista de todos que um percurso que, pelo centro, se estendia de uma ponta à outra da uma das maiores cidades do Minho, causaria problemas.

Obviamente que para além das organizações, a Federação deve ter também aqui uma palavra importante no aprovar dos percursos. É uma questão de imagem da modalidade.

A talho de foice, podemos referir aqui aqueles detestáveis e pré-históricos acompanhamentos das claques de futebol que também condicionam o trânsito. Mas mesmo estes são fenómenos localizados a áreas normalmente curtas e restritas. O ciclismo não se pode dar ao luxo de durante quilómetros condicionar de forma severa (mais do que o normal) o trânsito ou, pior, fazer parar uma cidade, nalguns acasos em horário de trabalho dos restantes cidadãos.

Problemas bicudos, muitas vezes de difícil solução, outras vezes flagrantemente visíveis, já há muito assinalados, nomeadamente, por Jean-Marie Leblanc, histórico director da Volta a França, competição que tem uma preocupação extrema com a questão, exactamente por não querer provocar muita lesão na sua imagem.

De acordo com este experiente homem do ciclismo, fechar os percursos por fechar, sem alternativas de circulação credíveis, dá sempre um beco sem saída, ora para o trânsito, ora para a modalidade!
Luís Gonçalves