FROOME, CONTADOR E AS VIRGENS

Chris Froome foi o principal protagonista de uma das maiores “remontadas” dos últimos anos no ciclismo. Nestes tempos, um verdadeiro acto à Contador. Por isso mesmo, nada melhor que juntar os dois no pódio final em Roma.

Enquanto pelo Tour, às vezes, embora seja importante, se olha demasiadamente para o passado, a organização do Giro deu alguma imagem de modernidade. Pelo Tour, passeia-se, inevitavelmente, um antigo francês, que terá tantos pecados como os outros. Já no Giro não existiu pudor em colocar no pódio final um espanhol, apesar de tantas e tantas grandes figuras italianas que podiam lá estar.

Juntaram também, sem o mesmo pudor, dois ciclistas escrutinados por tudo e mais alguma coisa. Apesar disso, não deixam de ser os dois maiores voltistas dos últimos dez anos. Mais do que isso, serão sempre mitos da modalidade. O que fazem e fizeram está ao alcance de muito poucos ao longo da extensa história da modalidade.

Os italianos são fanfarrões, mas são justos e percebem bem melhor que o público do Tour, mais massificado, o que é a essência do ciclismo. Têm a grande volta mais difícil de ganhar. Tão dura, por vezes a roçar o exagero que, existindo combatividade, teria de ser atribuída todos os dias a todos os ciclistas que terminam as etapas.

Cada vez mais o Giro se distingue das outras corridas, provavelmente um pouco por afronta na guerra de poderes instalada entre a UCI e os principais organizadores. Mas, mesmo com alguns exageros pelo meio e uma ou outra falha própria dos latinos, tem saído com uma imagem fortalecida.

Naturalmente que a “remontada” de Froome, se pode virar contra ele. Uma coisa é certa, todo o procedimento está para durar. No meio de tudo não sei como o Tour, mediaticamente, a maior corrida do mundo, se pode dar ao luxo de, por si, e contra o que é permitido, dispensar a maior figura da actualidade. Não estou a ver a FIFA, a não querer Ronaldo, Messi ou Neymar no Mundial da Rússia, independentemente de tudo o que os rodeie, nomeadamente, processos com milhões de dividas ao fisco, nalguns casos até já com condenações. Note-se, neste caso, ao contrário do ciclismo, falamos de crimes e de criminosos.

A FIFA percebe bem o que o público quer. Mais do que andar para trás e para a frente com a Sky e Froome, e a tratar mal a grande maioria dos ciclistas, a UCI devia ponderar seriamente alterações regulamentares e de procedimento que tornassem mais ágeis e justos estes processos. Justos, para todos, punindo quem deve ser punido, com segurança e certeza do que se está a fazer e não, como vezes a mais, baseando-se em meras suposições, fazendo lembrar aqueles polícias em determinados países sub-desenvolvidos que vêem, sem radar, que o automobilista vem em excesso de velocidade. Será um dom!

Se a ciência do controlo anti-doping avança, os procedimentos legais pararam no tempo. São desajustados, muitas vezes fora da realidade e profundamente lesivos de vários princípios básicos do Direito. Nalguns casos, a verter ideias, e sobretudo práticas de uma Ditadura.

Outros desportos já perceberam isso. Nós, no ciclismo, continuamos a ser as virgens dispostas a tudo, até às ínfimas pictogramas. Ou é para todos, ou não é para ninguém. E há gente a mais a viver, só, à custa das virgens.
Luís Gonçalves