“CIMA” Froome

Chris Froome after winning stage 19

Não há muito para dizer da etapa de hoje do Giro. Não há muito, apenas, por falta de palavras. São dias destes que fazem do ciclismo um desporto épico. E a culpa é dos ciclistas. Alguns.
No ciclismo moderno, digamos, a partir dos anos 90, são poucos os ciclistas que se dignam a fazer o que Froome fez hoje. Atacar tão longe da meta já é uma cena muito pouco vista. Sem este tudo ou nada o ciclismo não era um desporto de dias épicos. Pantani, Armstrong, Ullrich, Heras, noutro registo Escartin, e inevitavelmente Contador. Todos, a seu tempo, proscritos. Mas não são essas imprudências que fazem destes alguns dos melhores ciclistas de tempos mais recentes. É muito mais do que isso, por mais que custe a aceitar a alguns. Outros, de outros tempos mais idos, só não são proscritos, porque o ciclismo era diferente.
O público italiano parece compreender bem os factos. Público que se desloca em grande número, e com esforço, de bicicleta, como vimos, por exemplo no Finisterre, onde Froome passou isolado no Cima Coppi, bem diferente do público multinacional, composto de excursões sem saberem bem ao que vão, que vemos nas estradas do Tour, facilmente influenciáveis pela máquina de contra-informação francesa.
Não é o salbutamol que cria ambição, espírito de combate, resistência à pressão (e sob que pressão deve estar Froome), muito menos cria destreza e coragem nas descidas, algum espírito romântico, sem nunca perder o método, pelo cuidado com a alimentação, a gestão de esforço e a leitura dos acontecimentos de corrida.
Tom Doumolin, com outro estilo, também é feito dessa massa. À sua maneira, mais discreta, assume a corrida, a perseguição a Froome, com consciência plena das suas capacidades, olhando para a corrida com uma frieza pouco normal, aliás bem acima da média, durante o imenso esforço exigido a um ciclista em competição.
Simon Yates, aprendeu mais hoje do que em toda a sua carreira. O que lhe aconteceu, já é um filme visto com muitos outros ao longo da história. A diferença está nos que conseguem ultrapassar estes momentos. A capacidade está lá. Falta o fundamental. Uns, muito poucos, conseguem descobrir essa essência, outros afundam-se e não passam de ciclistas normais ou pouco acima da média. Por mais simpatia que sinta pelo homem, Pozzovivo, nunca passou disso.
Sem ser previsível, mas o Giro sempre foi feito de imprevistos, Froome até pode perder vinte minutos amanhã. Mas já nos deu um espectáculo inesquecível hoje. É importante perceber que se adaptou à forma de correr o Giro, tal como se adaptou à Vuelta e se adapta ao previsível Tour. Mais do que as cinco vitórias em grandes voltas, são as dezasseis participações que fazem a sua mentalidade. Isso, e o instinto. O que faz está ao alcance de muito poucos, com ou sem salbutamol. Se ajuda? Talvez. Mas está muito longe de ser tudo.
Luís Gonçalves

Não há muito para dizer da etapa de hoje do Giro. Não há muito, apenas, por falta de palavras. São dias destes que fazem do ciclismo um desporto épico. E a culpa é dos ciclistas. Alguns.

No ciclismo moderno, digamos, a partir dos anos 90, são poucos os ciclistas que se dignam a fazer o que Froome fez hoje. Atacar tão longe da meta já é uma cena muito pouco vista. Sem este tudo ou nada o ciclismo não era um desporto de dias épicos. Pantani, Armstrong, Ullrich, Heras, noutro registo Escartin, e inevitavelmente Contador. Todos, a seu tempo, proscritos. Mas não são essas imprudências que fazem destes alguns dos melhores ciclistas de tempos mais recentes. É muito mais do que isso, por mais que custe a aceitar a alguns. Outros, de outros tempos mais idos, só não são proscritos, porque o ciclismo era diferente.

O público italiano parece compreender bem os factos. Público que se desloca em grande número, e com esforço, de bicicleta, como vimos, por exemplo no Finisterre, onde Froome passou isolado no Cima Coppi, bem diferente do público multinacional, composto de excursões sem saberem bem ao que vão, que vemos nas estradas do Tour, facilmente influenciáveis pela máquina de contra-informação francesa.

Não é o salbutamol que cria ambição, espírito de combate, resistência à pressão (e sob que pressão deve estar Froome), muito menos cria destreza e coragem nas descidas, algum espírito romântico, sem nunca perder o método, pelo cuidado com a alimentação, a gestão de esforço e a leitura dos acontecimentos de corrida.

Tom Doumolin, com outro estilo, também é feito dessa massa. À sua maneira, mais discreta, assume a corrida, a perseguição a Froome, com consciência plena das suas capacidades, olhando para a corrida com uma frieza pouco normal, aliás bem acima da média, durante o imenso esforço exigido a um ciclista em competição.

Simon Yates, aprendeu mais hoje do que em toda a sua carreira. O que lhe aconteceu, já é um filme visto com muitos outros ao longo da história. A diferença está nos que conseguem ultrapassar estes momentos. A capacidade está lá. Falta o fundamental. Uns, muito poucos, conseguem descobrir essa essência, outros afundam-se e não passam de ciclistas normais ou pouco acima da média. Por mais simpatia que sinta pelo homem, Pozzovivo, nunca passou disso.

Sem ser previsível, mas o Giro sempre foi feito de imprevistos, Froome até pode perder vinte minutos amanhã. Mas já nos deu um espectáculo inesquecível hoje. É importante perceber que se adaptou à forma de correr o Giro, tal como se adaptou à Vuelta e se adapta ao previsível Tour. Mais do que as cinco vitórias em grandes voltas, são as dezasseis participações que fazem a sua mentalidade. Isso, e o instinto. O que faz está ao alcance de muito poucos, com ou sem salbutamol. Se ajuda? Talvez. Mas está muito longe de ser tudo.
Luís Gonçalves