Froome, a suspensão e a vitória no Giro

Os fortes ventos da Terra Santa foram favoráveis à organização do Giro. Duas vitória italianas, etapas com uma geografia bastante diferente da Itália e público, nas zonas de partida e chegada, porque no meio do nada era difícil, em abundância e, à boa maneira israelita, com uma forte convicção de segurança.

Contratempos, de maior, apenas o ressuscitar do caso Froome, que durante uns tempos até esteve adormecido. Não foi favorável o início do Giro para o inglês. Esperava-se um pouco mais no contrarrelógio. O Giro é longo, mas a queda matinal no reconhecimento do percurso, e porventura sobretudo o seu “caso” parecem afectar, pelo menos por enquanto, o desempenho do inglês.

Sobre a questão do resultado analítico atípico, têm-se levantado várias questões. A organização já demonstrou não ficar satisfeita, com um novo caso Contador, admitindo ignorar qualquer decisão desfavorável a Froome, mantendo o seu nome como vencedor no livro de prova. A UCI, naturalmente, opõe-se.

O caso de Froome vai demorar. Ou até à primeira decisão, ou posteriormente, as questões que são dadas a conhecer de ambos os lados, mas sobretudo da estratégia de defesa de Froome, levantam imensos problemas legais, científicos e, sem sombra de dúvida, até de natureza moral. Neste último passo, bem ou mal, podemos colocar na “mesa” o debate entre a saúde dos atletas e o rigor das normas anti-dopagem. Existirão válidas opiniões para tudo, mas não deixará de ser útil vincar a dupla cara do ciclista que foi mordido por uma vespa, sendo-lhe vedada a possibilidade de cura, acessível a qualquer cidadão, até ao mais criminoso dos criminosos! De forma algo exagerada, mas, o mesmo debate moral, entre a vida humana e as regras, pode também ser lançado, quanto ao rigor regulamentar de alguns comissários.

Certo é que os resultados analíticos atípicos, por mais que David Lapparttient esperneie nos locais errados, não implicam a suspensão automática dos atletas, qualquer atleta, de qualquer modalidade. Não é por ser Froome e a Sky. E se o atleta não está suspenso pode competir.

Uma futura sanção implica a invalidação do resultado individual na prova onde ocorreu a infracção. No caso a Vuelta 2017. Mas já a anulação dos resultados alcançados a partir do momento em que a amostra positiva foi recolhida, deixam mais margem de manobra.
Pode-se dizer que Contador “optou” (como quase todos) por fazer retroagir a suspensão aplicada ao momento da infracção (no Tour), por isso, pelo caminho, “perdeu” o Giro, mas, em termos práticos, e é o que interessa mais a qualquer desportista, esteve muito pouco tempo sem competir, ainda indo a tempo de ganhar a Vuelta em Setembro de 2012. Ou seja, numa linha de defesa podia ter optado por ficar com o Giro, mas estar dois anos sem competir, a partir do momento da decisão oficial de suspensão definitiva.

Embora num contexto ligeiramente diferente, a questão é: tal como Contador, Froome poderá ganhar o Giro de forma legal, porque pode competir e, “limpa”, porque quando sujeito aos controlos normais não revele nada de anormal. E se o fazem, porquê retirar-lhes estes títulos ? Ora bem, o aluno que copiou no exame de História, mas que deu o seu melhor, honestamente, no exame de Geografia três dias depois, tem que ver ambos os resultados anulados e ainda ficar impedido de ir ao exame de Filosofia. O exemplo é burlesco mas revela a punição para além da punição.

A solução radical, no desporto, seria sempre a suspensão automática em qualquer caso. Seria a ideal, se as questões fossem lineares e a justiça desportiva célere. Mas não é. O André Cardoso, que o diga, num caso de suspensão automática obrigatória que nos mostra que o sistema é uma verdadeira desgraça!! Um pau de dois bicos, que necessita de esclarecimento urgente, sendo que, optando por uma terceira via (a da suspensão só com efeitos para futuro, portanto, a partir da decisão final) as medidas das penas (os anos de suspensão) teriam de ser obrigatoriamente menores, talvez compensados com sanções pecuniárias mais pesadas, sob pena de, em certos casos, estarmos a aplicar implicitamente a pena de irradiação.

A organização do Giro, provavelmente pouco alinhada com o poder actual da UCI, conhece bem todas as circunstâncias e, no fundo, defende-se defendendo o ciclismo, porque em poucas outras modalidades existe esta dinâmica de perda tão acentuada. O “Tour” é mais ponderado. Mas não deixa de continuar a incluir o nome de Armstrong no livro de prova, com um sombreado ligeiro e um ténue risco por cima.
Luís Gonçalves