OS CIMA COPPI’S DO GIRO

Todo o Giro parece o Cima Coppi. Desde o início em Israel, apesar de plano, mas que dará que falar pela imensa segurança a que toda a caravana terá que ser sujeita, pairando sempre alguma tensão, até às mais altas montanhas dos Alpes, no fundo, o Cima Coppi simboliza a dureza e a diferença que é fazer um Giro.

Desde associações políticas, que normalmente escapam ao Tour pelo menos de forma tão declarada e evidente, bem como as religiosas (e também políticas…), recordando que em 1974, o Giro partiu da cidade do Vaticano, apelos ao passado com estradas de terra, no meio de algum exagero e algumas confusões à italiana, o Giro tem o dom de inventar, às vezes de mais, mas também de se reeinventar, mantendo-se interessante.

O verdadeiro Cima Coppi desta edição, estará perto do fim, a 2178 metros de altitude, no Colle delle Finistere. Com pontuação extra, a homenagem é ao campeonissímo italiano Fausto Coppi que, a par de Eddy Merckx e Alfredo Binda detém o recorde de vitórias no Giro (5). Podia provavelmente ter mais, até mais dos que as duas Voltas a França que também tem, e poderia ter somado uma Vuelta. Atravessou no entanto o período da segunda guerra mundial, onde esteve como combatente, e onde se proporcionaram óbvios interregnos na realização das grandes Voltas. Ficaram vitórias nas maiores clássicas, em campeonatos do mundo e épicos duelos com o rival de sempre, Gino Bartali.

Personificam esses duelos o domínio que os italianos têm da sua Volta. Ao contrário do que sucede na Vuelta e sobretudo no Tour, nunca estiverem mais de cinco anos sem uma vitória caseira. Nos últimos anos, as despesas têm corrido por conta de Nibali, a que antecedeu Scarponni, em 2011, quando Contador foi desapossado da vitória. Os italianos adoram a sua Volta, lidam bem com todos os Cima Coppi que lhes aparecem, estão habituados aos rigores do território italiano e a uma maneira de ser muito própria, e nem sequer se incomodam de ostentar o numero nero. Para os italianos o numero nero (o último da classificação) não é o último. É alguém que terminou o Giro!

Apesar do domínio italiano, este Giro, pode-nos providenciar o primeiro vencedor inglês. Sem ser inglês, o mais próximo disso terá sido a vitória do americano Andrew Hampsten em 1988, que abriu caminho a todas as seguintes vitórias anglófonas em grandes volta. Veremos se a meticulosidade de Froome e da Sky, se adapta à constante necessidade de improviso para quem faz o Giro. O Tour é quase mecânico. O Giro tem Cima Coppi’s todos os dias.
Luís Gonçalves